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Ignorância cultural é o bicho

Difícil mesmo é lidar com o preconceito ocidental em relação à maneira como se come na China
Negócios e intercâmbios no gigante asiático giram em torno de comida

Inverno lembra sopa, que lembra o estilo de comida "molhada" nas regiões Norte e Nordeste da China, as mais geladas do país, e nas províncias do Leste também, acima de Shanghai, que quando resolvem esfriar, fazem isso com gosto. São muito comuns nos restaurantes dessas regiões os caldeirões com comidas fervendo, caldos grossos com carnes e outros alimentos nem sempre identificáveis, mas em geral bastante saborosos. São comuns também as tigelas com macarrão, ovo, verduras e caldos muito bons.

Negócios e intercâmbios na China giram em torno de comida. Não há como escapar de almoços e jantares. E de comer frutas e tomar iogurte durante as reuniões de manhã e à tarde. Exageros à parte, conviver na China é comer junto, e lá come-se o tempo todo – no trabalho, na rua e nos pequenos restaurantes que existem em grande quantidade. Por isso, "saber comer" (e beber) é importante para a realização de negócios e intercâmbios, mas é muito mais importante para se estabelecer relacionamentos, fundamentais para a realização de negócios e intercâmbios.

Comitivas do Brasil costumam ter dificuldades com a comida na China. A maioria desconfia do que há nos pratos, tal a força da propaganda negativa a respeito do que se come lá – de carne de cachorro a sapos e todo tipo de insetos. Há brasileiros que em seu primeiro dia no país conseguem se queixar da falta de feijão. Outros perguntam: "Não tem uma farinha?". E muitos reclamam do arroz, para nós a versão "juntos venceremos" sem gosto. Alimentos com temperos mais picantes agradam uns e desagradam a maioria, tal a intensidade com que se utiliza alho, cebola, gengibre e rica variedade de pimentas. Na província de Sichuan, considerada a campeã das comidas apimentadas, há inacreditáveis pratos somente de pimentas.

Seguindo a máxima "não é bom, nem ruim, é diferente" a gente consegue conviver com todas as diferenças – ou quase todas: tem pratos tão apimentados que são impraticáveis para quem não tem o dom de comer pimenta como se fosse acerola. E é bem fácil apaixonar-se pela culinária chinesa, porque ela é saudável, muito saborosa e variada, capaz de agradar vegetarianos e onívoros. Só mesmo quem não abre mão de churrasco é que sofre um pouco...

Difícil mesmo é lidar com o preconceito ocidental em relação à comida e à maneira como se come na China. Uma vez, em um restaurante bem no interior do país, um dos integrantes de uma comitiva brasileira, pessoa respeitável (doutor, diretor de empresa importante), indignado com o barulho que os jovens intérpretes faziam para tomar a sopa quente, resolveu se queixar publicamente. Ele não sabia da técnica que eles têm para tomar sopas quentes, que produz um barulho considerável e é um hábito cultural característico. Pois o tal doutor foi até a mesa dos intérpretes e os agrediu verbalmente, um verdadeiro "show" de preconceito e arrogância. Foi constrangedor. Os intérpretes decidiram ir embora, com razão – o que nos obrigou a horas de conversas e mil desculpas do líder da comitiva.

Ignorância cultural é o bicho. Para o doutor, a maneira dele comer era a boa, a única correta; se não fosse igual à dele, era ruim, errada. Ele não aceitava as diferenças culturais da China, país com 5 mil anos de civilização. Só depois de muita conversa ele se deu conta do que fizera, e, no final da viagem, pediu desculpas públicas à equipe chinesa.

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Sábado, 08 Agosto 2020

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