Se Curitiba me salvou, Innsbruck me desmoralizou

Tenho experiências boas e ruins com a neve
Não há cidade feia quando coberta pela neve

Se quase não há noiva feia, não há cidade feia quando coberta pela neve. Sob a alvura do manto, some a sucata industrial, a balsa à deriva, a casa em escombros e as bocas de esgoto. Briga-se menos e ama-se mais diante do que é, ao mesmo tempo, ameaça à atividade e promessa de aconchego. Paris é uma noiva bonita. Mesmo na canícula de agosto, quando a paisagem afunda no mormaço, o mundo a venera. Na luz mutante das meias-estações, deslumbra a um ponto tal que dispensa descrições. Na primavera, gorjeia. No outono, toca Bach. Desfolhada e apática no inverno, no exato momento em que poderia decepcionar o visitante básico — aquele que só enxerga o que vê —, vem a neve de flocos grandes.

Mesmo abundante, tudo é "neige". Na Escandinávia, onde a distinção integra o binômio sobrevivência e rotina, ela atende por nomes diferentes. Na Suécia, há "nysnö" para a neve fresca, recém caída. "Pudersnö" define-a quando vem em rajadas de pó. "Blötsnö" vale para a forma molhada. E bola de neve? É a feia e pouco melódica "kramsnö". Difícil? Não. Na churrascaria, você não pede "carne". Pede alcatra, fraldinha, filé e costela. Todo mundo merecia passar uns dias na paisagem nevada. Mesmo o sujeito mais amargo, aquele que só destila bile, vai se sentir tentado a contemplá-la. Por natureza, ela vai sumir logo. Pode durar horas, dias ou semanas. A perspectiva do degelo é a antecipação da desilusão. Daí o desarme das defesas. Com o espírito escancarado, a necessidade de apreender tudo antes que suma pode até arrancar um anseio de transcendência dos recalcitrantes.

Tenho experiências boas e ruins com a neve. As boas são muitas, mas talvez não fujam do trivial. A primeira vez que vi neve cair foi às dez e quarenta da manhã de 6 de janeiro de 1976, em Rothenburg-ob-der-Tauber, uma ourivesaria medieval na metade sul da Alemanha. Éramos uns 20 alunos na aula de alemão. Herr Kappel, o professor, sorria de nossa perplexidade com o quão natural era para ele passear pelo nominativo, acusativo, dativo e genitivo. Como diabos um dia iríamos poder nos lembrar à hora de falar do que era o objeto direto? Por incrível que parecesse, o alemão era bom idioma para latinistas. Isso viria naturalmente, ele nos tranquilizava. O tempo e a prática correta ajudariam. Tudo se resumia a adquirir "Sprachgefühl" [sensibilidade ou um sentido para a língua]. Era para isso que ele estava ali. Mas então Herr Kappel pegou o cachimbo, alimentou-o com uma carga de tabaco aromático e olhou para fora da janela. "Schnee" [neve, em alemão], disse entredentes.

As reações dos alunos foram distintas. O iugoslavo acendeu um cigarro e me pareceu triste, contemplativo. Coincidência ou não, dias mais tarde ele foi a Belgrado para o enterro do pai e só voltaria depois de duas semanas. Os suíços faziam uma cara blasé de quem dizia "ah, afinal". No país deles, tudo já estava branco há quase três meses. As gregas Despina e Cresinda se deram as mãos em excitação. Os espanhóis não conseguiam dizer Schnee, senão "sne". O escocês MacDonald, nosso decano, foi o mais espontâneo. "Pause, Pause" [calma, calma, em inglês], conclamou. Os turcos o aplaudiram em apoio. Herr Kappel então pegou o cachecol e, vendo que a unanimidade se formava, olhou o relógio e aquiesceu. "Tja" [interjeição alemã sem tradução direta, mas equivale a um "bem...", "pois é...", "ora...", ou "sabe..." em português], conclamou, topando o intervalo antecipado.

Agasalhados, fomos até um pátio que era contíguo ao ginásio. A neve se adensou. Num raro sorriso, Herr Kappel, que me tratava com o carinho dispensado ao mais jovem da classe, me perguntou articuladamente, como era do seu feitio e ofício: "Herr Dourado, haben sie schnee in Brasilien?", ou seja, "Sr. Dourado, neva no Brasil?". Que pergunta terrível de se fazer a um brasileiro. Como admitir que num país que era 20 vezes maior do que as duas Alemanhas somadas, caía por ano uma neve rala, que já estava derretida ao meio-dia, e isso em apenas algumas localidades muito altas, lá no Sul, onde havia núcleos alemães que eu jamais visitara?

Mas então me lembrei de uma ocorrência recente que salvaria minha honra. Num alemão que carecia de lubrificantes, eu disse algo assim. "O Brasil é gigantesco. De onde eu venho, se nevar significa que o mundo acabou. Mas no Sul, em Curitiba, nevou muito ano passado", afirmei fingindo naturalidade. Herr Kappel engoliu em seco, surpreso, e fez um gesto de quem reconhecia nossa neve como legítima. Era como se agora integrássemos um clube de fabricantes de bomba atômica. Curitiba salvara minha honra.

Para selar nosso pacto de poderosos, apontei uma linda moça do Senegal, uma espécie de Naomi Campbell que empolgava os europeus, e cutuquei-o: "Quanto a Fräulein Faye, posso garantir que no país dela não há neve alguma." Ele entendeu o recado. Nós éramos potências nevadas. A África talvez fosse pobre porque, em sua imensidão, tinha pouca neve. E o Senegal, menos ainda. O amendoim, a manga e o cacau não vingariam sob o gelo. Naquela hora, entendi pela via de minha fraqueza como a burguesia é horrível e aspiracional. Basta ter uma poeirinha de neve para querer ser vista como uma Saint-Moritz subtropical. Une-se aos ricos e despreza os pobres. Não é assim que faz a classe média quando compra um carro em 24 prestações? Prometi a mim mesmo que repeliria pelo resto da vida toda e qualquer tentação burguesa a que quisesse sucumbir.

A neve continuou caindo e encantando. A caminho de casa no fim da tarde, fiz uma espécie de boneco no jardim da mansarda em cujo porão eu tinha um quarto. Por que não tinha comprado uma cenoura no mercado? Não muito tempo depois dessas semanas na paisagem imaculada, fui à Áustria. Com Innsbruck [capital do estado do Tirol, no oeste da Áustria] aos pés, deixei cair um saquinho onde guardava bolachas de chope de todas as cervejarias que tinha frequentado na Baviera. Elas se espalharam na encosta. Resolvi descer para pegá-las. Foi uma imprudência de grau máximo.

Quando tentei subir, depois de ter perdido a metade delas, escorreguei e quase provoquei uma pequena avalanche. Homens se reuniram a 40 metros lá no alto e gritaram para eu não me mexer. Que o socorro estava a caminho. Um sujeito de anorak chegou a dez metros, e me lançou uma corda. Veio a ordem: "Largue a sacola e segure a corda com as duas mãos." Que humilhação. Se Curitiba me salvou, Innsbruck me desmoralizou. Era o preço por ter desprezado a neve do Senegal. Eu já não sentia mais as pernas. "Halten Sie das Seil fest" ["Segure a corda com firmeza"], determinaram. E me puxaram. Naquele instante, ouvindo comandos em alemão, eu era o próprio fugitivo indefeso a caminho do infortúnio, coreografado por seus algozes em sua língua nativa.

Quando cheguei no alto, antes de me levarem para o pé da lareira, ouvi um sermão. "Guarde a lição. Nunca desça por lugares não sinalizados. Desta vez, não vamos multá-lo porque vê-se que não tem experiência. Mas talvez você merecesse." Acredito que o meu olhar tenha sido o de um cachorrinho que é repreendido por ter feito xixi na sala. Quando peguei o teleférico para descer, agora sentindo o sangue voltar a circular, o instrutor me bateu no ombro. "Essas coisas acontecem. Kopf hoch [Anime-se]".

Ah, esqueci de falar de Paris sob a neve. Há exatos cinco anos eu caminhava pelas alamedas brancas do Jardin des Plantes. Parado, contemplei a escultura do caçador de ursos de Frémiet — também salpicada de neve. Mas isso data dos tempos de uma certa Viagem Imóvel que tive de fazer.

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Sexta, 09 Janeiro 2026

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