Raspas e restos interessam
Pesquisadores são pródigos em analisar despensas e prateleiras de domicílios, carrinhos de supermercado, extratos de cartão de crédito e tudo o mais que estiver à disposição para descobrir hábitos de consumo. Tem lógica: é por meio do que as pessoas compram e guardam que se tem uma ideia de quanto ganham e como vivem. Mas raramente esses investigadores, a fim de entender estas mesmas variáveis, se dedicam a examinar o que as famílias jogam fora – e é aí que todos os envolvidos nas coletas de lixo das grandes cidades podem contribuir para os estudos de marketing e de atividade econômica.
Um exemplo simples. Em 2019, flagrou-se nas usinas de separação e reciclagem de lixo que havia aumentado o número de catadores, num sinal de avanço do desemprego, e diminuído a quantidade de material disponível – indicativo de que o consumo das famílias (e de descartes, consequentemente) vinha em queda livre. Não precisava nem de IBGE para deduzir que a economia do país passava por maus bocados.
Numa sociedade afluente, ao contrário, a investigação das lixeiras tende a revelar desperdício e elevada pegada ecológica. Alguns brasileiros expatriados mostram nas redes sociais o que norte-americanos descartam, que vai desde alimentos com a embalagem intacta até brinquedos, eletrônicos e outros objetos que fariam a festa de metade da população do planeta. Um sociólogo americano dedicado a este "método de investigação", aliás, conta já ter encontrado pequenas joias – literalmente – no meio da tralha alheia.
Mesmo no Brasil é possível pintar um retrato da nossa época a partir das montanhas de rejeitos. Tanto que uma catadora local, influencer, criou um bordão esperto para alardear suas descobertas: "olha o que eu 'ashein' (achei) aqui". Sim, no futuro, poderemos definir os anos 2020 como os dos badulaques online de Shein, Shopee e AliBaba — e Katty, a tal recicladora TikToker, já lhe pespegou um belo apelido, digno de uma publicitária (Conheça três catadoras que fazem sucesso como influenciadoras).
Até um médico já usou o lixo como termômetro para seu ibope. Nos anos 1990, Dráuzio Varella sabia se o gibi pelo qual ensinava a prevenção do HIV tinha feito sucesso entre os detentos do Carandiru dando uma olhada nas lixeiras no dia seguinte à distribuição. Se houvesse poucos exemplares repousando por ali, bom sinal: a HQ – e sua mensagem, que era o mais importante – tinham sido acolhidas.
Nada mais natural para um epidemiologista, aliás, recorrer a tal método, visto que é por meio do esgoto que se descobre a prevalência de muitas doenças numa população. Foi assim na covid-19 e é assim com o uso de medicamentos controlados e com a gripe. O detetivismo cloacal, se é que podemos chamar desse jeito, ajuda a driblar as barreiras típicas da entrevista individual, como a confissão do uso de drogas, consumo de alimentos ultraprocessados ou tabaco.
Em resumo: "as pessoas jogam a vida delas no lixo", conforme diz uma catadora pop. "Dá para saber tudo" por meio do que vai fora. Por isso, como diria Cazuza, raspas e restos interessam – e muito.
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