A China subsidiará a produção de carne como fez com a de leite?
As medidas de salvaguarda sobre carne bovina importada, anunciadas pelo Ministério do Comércio da China em 31 de dezembro do ano passado, de 55% sobre o que exceder de 2,7 milhões de toneladas garantidas através de cotas para os países exportadores, teriam sido decididas após investigação sobre as importações, iniciada no final de 2024, atendendo a reclamações do setor nacional, com dificuldades para concorrer com os preços e a qualidade da carne bovina importada. Com a tarifa de 55%, pecuaristas e frigoríficos da China ganharam três anos para conseguirem competir com Brasil, Austrália, Índia, Estados Unidos (EUA) e Argentina, pela ordem os maiores exportadores de carne bovina do mundo.
Ainda que assuste, os 55% serão aplicados somente sobre a quantidade que ultrapassar a cota de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil, que, diga-se de passagem, é a maior dos seis países exportadores. A cota brasileira é mais que o dobro da segunda maior (Argentina, com 511 mil toneladas) e é quase sete vezes maior do que a dos Estados Unidos (164 mil toneladas). Grande consumidora de carnes suína e de aves, a população chinesa começou a comprar mais carne bovina conforme aumentava seu poder aquisitivo. O mundo aumentou 7,8% o consumo de carne bovina no período 2014/2024. Na China, nesse período, o consumo de carne bovina cresceu 78% – dez vezes o crescimento médio mundial, de acordo com o Anuário CiCarne da cadeia produtiva da carne bovina 2024-2025, da Embrapa Gado de Corte – publicado em março de 2025, com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Enriquecimento explica
Esse salto do consumo chinês de carne bovina é tão inacreditável quanto facilmente explicável, pelo aumento do poder aquisitivo ocorrido no país, no mesmo período, de mais de 100%, de acordo com o Banco Mundial: de US$ 12.941 em 2014, o PIB per capita na China chegou a US$ 27.105 em 2024, pela Paridade do Poder de Compra (PPP). Ainda que o PIB per capita seja apenas a divisão do PIB do país por sua população, e não a renda efetiva das pessoas, o que ocorreu na China é algo inédito realmente, porque o PIB per capita (PPP) aumentou seis vezes, de 2004 (US$ 4.505) para 2024 (US$ 27.105).
Tanta gente na China com poder aquisitivo crescendo ano a ano, nas últimas duas décadas, resultou em um verdadeiro "boom" do consumo da carne mais cara, distante dos pratos da grande maioria da população chinesa no Século 20. Lembro-me que quando fui à China em 1997, era muito raro comer carne bovina, e ainda assim o que aparecia eram pedaços bem pequenos – nada comparável aos nossos bifes caseiros, aos grandes pedaços assados, ou aos rodízios tão comuns no Brasil.
Resultados desse conjunto de fatores: com o consumo disparando, a China se viu obrigada a importar muita carne bovina, e até animais vivos. Não podemos nos queixar: o Brasil foi o país que mais ganhou com a expansão do mercado de carne bovina na China – saímos de US$ 461 milhões em vendas em 2015, para US$ 8,1 bilhões em 2025, quase 18 vezes mais. No ano passado, o Brasil teria vendido 1,7 milhão de toneladas para a China, mais da metade do total que ela compra do mundo. Há apenas dez anos, a maior parte da carne bovina do Brasil para a China ainda seguia por Hong Kong, então o nosso maior importador, com US$ 970 milhões.
Essa situação só mudou em 2018, quando a China comprou mais (US$ 1,5 bilhão) que Hong Kong (US$ 1,4 bilhão). E a partir de 2019 – com US$ 2,7 bilhões da China e US$ 1,1 bilhão de Hong Kong –, conforme a China importava diretamente mais carne bovina do Brasil, diminuíam os valores das importações por Hong Kong, até chegar aos US$ 8 bilhões em 2025, ano no qual Hong Kong saiu do clube dos cinco maiores importadores mundiais de carne bovina do Brasil. Esses dados estão disponíveis no site da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, a entidade à frente da ampliação das exportações de carne bovina.
Analisando-se a evolução 2014/2024 da produção e do consumo de carne bovina no mundo, e da China e Índia em particular, a partir dos dados do "Anuário CiCarne 2024-2025", chamam a atenção o aumento do consumo chinês, de 5 milhões de toneladas (de 6,5 milhões de toneladas em 2014, para 11,5 milhões em 2024), e indiano, de 1 milhão de toneladas (de 1,9 milhão em 2014, para 2,9 milhões em 2024). Conhecida por ter o maior rebanho bovino não-comercial, a Índia sempre apresentou um consumo baixo de carne bovina, condição que começou a ser alterada graças ao aumento do poder aquisitivo – o PIB per capita (PPP) indiano passou de US$ 2.682 em 2004 para US$ 11.160 em 2024.
A salvaguarda
Com 11,2 milhões de toneladas de consumo e 7,5 milhões de toneladas de produção, previstos para a China em 2026, pelo USDA em sua publicação "Livestock and Poultry: World Markets and Trade", o déficit chinês de 3,7 milhões de toneladas só pode ser coberto com importação. Portanto, a salvaguarda da China com o teto de importações de 2,7 milhões de toneladas via cotas, deixa 1 milhão de toneladas a descoberto, o que só permite duas alternativas para não inviabilizar a venda no varejo: aumento expressivo da produção interna ou diminuição dos preços e margens da carne importada.
Do lado do Brasil, o que já se anunciou para poder vender além da cota de 1,1 milhão de toneladas sem pagar os 55% adicionais, é a possibilidade de se negociar a transferência de cotas, citando como exemplo os EUA, que vendem para a China menos da metade do que passaram a ter direito com a cota. A única coisa garantida é que aumentarão as pressões sobre as exportadoras brasileiras para reduzirem preços, porque os consumidores estão comprando menos – exceto os turistas, dezenas de milhões, nunca incluídos nas contas do tamanho do mercado.
Quanto às possibilidades de o Brasil continuar a exportar para a China a quantidade recorde de carne bovina que vendeu em 2025, muito dependerá do desempenho dos pecuaristas e técnicos chineses, que enfrentam dificuldades naturais consideráveis e correm contra o tempo para conseguir suprir genética e alimento para o gado com custos compatíveis com os dos países exportadores. Comecei a ter contato com o setor de carnes na China em 1997, em visitas a criações de suínos e aves. A partir de 2005 e até 2013, fui a criações de gado bovino de leite e de corte, confinamentos, institutos de pesquisas, frigoríficos, mercados, supermercados e restaurantes, em várias províncias, e na Mongólia Interior.
Naquela época, as criações eram bastante atrasadas, com graves problemas estruturais, e pareciam depender de subsídios governamentais para sobreviver. Os principais fatores limitantes da pecuária na China, de corte e de leite, eram – e suponho que ainda sejam – a escassez de água; de alimentos para o gado; rebanho insuficiente para a quantidade de habitantes do país; abate muito elevado; e falta de experiência em manejo de gado bovino em grandes criações – historicamente na China, bois e vacas sempre foram para tração nas lavouras. A falta de tradição em pecuária de corte poderá ser compensada por tecnologia? Conseguirão isso sem encarecer demais a atividade? O governo subsidiará a produção de carne como fez com a de leite?
Outro aspecto a ser considerado é o da autossuficiência alimentar, muito importante para a China, e que recentemente voltou a ser destacada como meta a ser alcançada. Até 2035 a cobertura florestal deverá atingir 26% do país, regiões semiáridas e desérticas estão sendo recuperadas há anos, e esse esforço de restauração ambiental beneficia boa parte das pastagens degradadas, que estão voltando a ter capacidade de alimentar animais, em sistemas modernos de criação e engorda de gado bovino. O aspecto ambiental é decisivo para a pecuária de corte na China, porque para não concorrer com a atividade agrícola, responsável pela produção de 700 milhões de toneladas de grãos e mais uma infinidade de outros alimentos, ela é desenvolvida em grande escala nas distantes regiões autônomas da Mongólia Interior e de Xinjiang, dominadas por semiáridos e desertos e com baixíssima quantidade de chuvas.
Divergências sobre o futuro
Há enorme divergência de números, a respeito da produção e consumo de carne bovina no mundo. O USDA, por exemplo, informa um total de 61,4 milhões de toneladas em 2024 e a OCDE-FAO 73,9 milhões de toneladas. Em sua publicação "Livestock and Poultry: World Markets and Trade", de 9 de dezembro do ano passado, o USDA anuncia o total mundial de produção de 61,9 milhões de toneladas em 2025 e prevê 61 milhões para este ano. E o consumo um pouco menos: 60,2 milhões de toneladas em 2025 e 59,5 milhões para este ano. Para conferir na fonte, eis o que estima a publicação "Perspectivas Agrícolas 2025‑2034", da OCDE e FAO, na página 94: "Se prevé que el crecimiento total del consumo de carne de vacuno será de 47.9 millones de toneladas (Mt) durante el próximo decênio". E na página 96 o documento afirma: "Se prevé que el consumo mundial de carne de vacuno alcanzará 84 Mt equivalente de peso en canal (c.w.e). durante el siguiente decenio y permanecerá estable en alrededor de 6 kg per cápita/año equivalente alimentario en peso al menudeo (r.w.e.)."
A quem beneficiam diferenças tão grandes em previsões de produção e consumo de carne bovina?
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