Admirem a nossa falha

Restaurantes fazem sucesso admitindo seus problemas
O Restaurante dos Pedidos Errados, em Tóquio, faz jus ao nome ao empregar garçons com demência

Restaurantes volta e meia tentam tornar inusitada a experiência de seus clientes, a fim de se diferenciar. Mas por este caso japonês, ninguém esperava. O Restaurante dos Pedidos Errados, em Tóquio, faz jus ao nome ao empregar garçons com demência. Comprometidos em sua memória e aprendizado, e obviamente com a empregabilidade prejudicada, esses profissionais ganham no estabelecimento a chance de trabalhar e não ser punidos pelos problemas de performance que sua condição acarretará – o nome do lugar, afinal, já é uma proteção contra reclamações. A intenção precípua de oferecer oportunidade a um grupo tão específico foi conscientizar sobre transtornos neurodegenerativos, e a forma de converter essa peculiaridade em chamariz, melhor ainda: "ainda que (o pedido) venha errado, tudo no nosso menu é delicioso e único".

Há um fundo de verdade no slogan. Gostar de um prato depende não só do paladar em si, mas da percepção – ou seja, de saber o que estamos ingerindo e por quem foi preparado. Em jantar às cegas em São Paulo, comensais confundiram alface com acelga e pato com porco, por exemplo (Folha de S. Paulo, 18/03/18). Se coisas tão diferentes podem ser apreciadas como iguais, por que um pedido trocado não pode ser tolerado em nome da experimentação? Além disso, grifes influenciam no gosto, como lembra Alex Atala, o mais conhecido chef brasileiro. "Às vezes a gente erra e as pessoas tomam aquilo como bom. 'Se veio do D.O.M. (restaurante de Alex), é bom'" (Estadão, 14/08/2008). Não se trata, no fundo, da promessa do restaurante japonês, onde "tudo é delicioso"?

Há também alguma lógica de marketing na empreitada. O restaurante é um exemplo daquilo que Al Ries e Jack Trout chamam de "Lei da Sinceridade". Ela consiste em admitir uma fragilidade para, paradoxalmente, vê-la transformada em fortaleza na mente dos clientes, seja pela honestidade em confessá-la, seja por desviar a atenção da debilidade para algum aspecto positivo – no caso, dar oportunidade a trabalhadores marginalizados. E não é o único caso. Um restaurante chinês do Canadá faz observações meio derrisórias a respeito de seus próprios pratos. "Não são tão bons", "não devem esperar que seja tão saboroso", "não chega perto das que costumava comer quando era universitário na China" são algumas que acompanham o nome das iguarias no menu. O resultado desta tática? "Foi muito bom para os negócios", disse o proprietário.

Um sinal de que, em negócios gastronômicos, a criatividade não deve ficar restrita à cozinha.

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Sexta, 14 Junho 2024

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