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A felicidade como negócio

Vivo hoje aquela situação de quando o jogo de xadrez empaca e ninguém pode mexer uma peça
A grande alegria vem do fato de que a indústria da felicidade entra em recesso e passamos a viver sob o império da alegria sóbria

De Paris (França)

Não gosto do verão. Nem em Paris nem no Ártico. Os momentos mais torturantes da vida eu passei no calor: Bagdá, Bandar-Abbas, Teresina, Porto Alegre, Atenas. Se para a canícula tenta-se dar um jeito, para o espírito de verão não há remédio. Isso porque grassa uma indústria, um negócio, uma vigarice que, no mundo todo, tenta associá-lo à felicidade. Ora, a maioria de nós é fundamentalmente infeliz. Não se sabe de nenhum adulto pensante que se declare feliz – só sendo idiota. Mesmo porque, todos sabemos que a felicidade é uma miragem, o que não impede que tenhamos algumas, ou muitas gotas desse elixir. Mas nada há que consiga, sustentadamente, iludir um adulto ou mesmo jovens maduros assim onde, aliás, se concentra farto número de infelizes. De mais a mais, nada garante que após uma noite boa, não venha uma manhã infernal. O contrário dificilmente é verdadeiro.

Esse ano, na esteira da pandemia, com todas as limitações impostas à livre circulação das pessoas, a propaganda tatibitate da felicidade ganhou outra cor. Deram uma trégua para o pôr do sol em Santorini, os casais enlaçados em praias lânguidas, as mulheres vermelhas como lagostas que veneram o sol, e aquelas cenas de iate em que um bocado de gente de plástico dança ao entardecer. Nem na primavera essa indústria é ostensiva. Há muitos anos que evito vir à Europa no verão. Quando preciso, é a negócios. Logo, fico na bolha do ar refrigerado –aeroporto, hotel, escritório, restaurantes –, o que é o mesmo que não estar aqui. Esse ano não tenho escolha. Voltar para o Brasil é me expor a riscos de que poderia não escapar vivo. Se pudesse me mexer aqui, talvez voltasse à Islândia. Vivo hoje, neste 8 de julho de 2020, aquela situação de quando o jogo de xadrez empaca e ninguém pode mexer uma peça.

O grande alento é sempre o de pensar que dentro de mais 2 ou 3 meses, a temperatura despenca e uma bela noite, pode ser que o termômetro volte a marcar um dígito. Aí não se trata mais do clichê de taxista que consagra o dormir bem, comer bem e namorar bem. A grande alegria vem do fato de que a indústria da felicidade entra em recesso e passamos a viver sob o império da alegria sóbria, repousada, serena. O problema é que quando o outono chegar, o Corona pode ressurgir sob outras formas, e reaparecer como um visitante agressivo. Antes disso, aí sim, vou ter de cruzar a linha do Equador e me mudar de volta para a parte Sul da Terra. Sabendo que por um bom tempo talvez não possa mais voltar a esta pontinha do continente eurasiano onde passei os melhores momentos da vida. Nada é tão desafortunado e infeliz quanto o nefando: "É verão, bom sinal, já é tempo..." – nem com Roupa Nova. 

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Terça, 29 Setembro 2020

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