O futuro do futebol?
É conhecida a filosofia do Athletic de Bilbao, da Espanha, que só contrata jogadores nascidos, criados ou com ascendência no País Basco, região da qual o clube é originário. Trata-se de um posicionamento político que se tornou uma marca registrada e segue inalterado independentemente dos inevitáveis prejuízos técnicos que lhes possa acarretar. Princípios só são princípios quando custam alguma coisa, afinal.
Pois agora parece que lógica semelhante, a de abraçar ideais e apelos identitários, atingiu outras agremiações, sejam elas recém-criadas ou donas de um histórico conhecido e respeitável. Anos atrás comentei sobre o Forest Green Rovers, da Inglaterra, o time mais ecológico do mundo. Mas há outros casos no Brasil e na Europa.
Por aqui, o Laguna F.C., do Rio Grande do Norte, tornou-se o primeiro clube vegano do país. Mas seu engajamento vai além da não utilização de produtos de origem animal no vestuário e na alimentação: funcionários e jogadores fazem mutirões de limpeza das praias, participam de ações sociais e seguem um código de ética que não permite ter conta em casas de aposta. A inspiração? Os Rovers e o Athletic citados na abertura deste texto.
Mas é possível abraçar causas com orgulho mesmo em meio de uma trajetória centenária. O Cádiz, da cidade andaluz homônima, destinou um setor específico dentro de seu estádio ao ativismo. Nele, movimentos antirracismo e dos direitos femininos e LGBT podem panfletear à vontade junto a torcedores, dando visibilidade às suas ideias. Num futebol coalhado de manifestações discriminatórias, a iniciativa surpreende – e bem que poderia ser replicada por rivais.
Um pouco diferente foi a escolha do Olympique de Marselha (OM), na França. Se o PSG é o grande time do momento, graças à contratação de craques renomados, o que resta a uma equipe sem os mesmos recursos? Posicionar-se como "do contra", ora.
Com a palavra, seu presidente: "Temos de atrair uma geração de seguidores jovens que quer mudar o mundo. De quem diz: 'me levanto e vou contra o poder'. (...) Jovens que não têm esperança". Assim como existem marcas que evocam rebeldia e inconformidade, o OM quer ser o time que as ergue como bandeira.
Ainda que interessantes sob a perspectiva do marketing, todas essas iniciativas deixam em alerta quem acompanha o futebol. Diante da hegemonia econômica e desportiva de clubes de ponta, que contam com os melhores jogadores e se revezam monotonamente no topo dos pódios, parece restar aos demais a alternativa de se diferenciar fora do campo, pois, dentro dele, as competições terminam antes mesmo de começar. É como se Real Madri, Barcelona, City, Bayern, Palmeiras e Flamengo oferecessem aos demais apenas a chance de ter ideais e propósitos, e não ambições esportivas, perpetuando o grande oligopólio sem graça em que a modalidade se transformou nesta década.
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