Que não doa a quem doar
O empresário mineiro Estavam Assis aprendeu desde menino a importância da solidariedade. Mesmo pertencente a uma família sem posses, era incentivado pela mãe a contribuir com o dízimo da paróquia que frequentavam. "Quem não começa de pouco, não vai começar de muito", justificava ela. Já adulto e um dos maiores supermercadistas do país, Assis manteve os hábitos altruístas. Tanto que, hoje, destina a maior parte de seu pró-labore a obras sociais e vive de maneira frugal com a esposa, em Belo Horizonte, num quarto-e-sala. "Morrer rico é falta de criatividade e atitude cristã", costuma repetir.
Assis é, obviamente, uma exceção em matéria de desprendimento, mas o costume de destinar parte da herança à filantropia tem aumentado entre ricos e remediados, no Brasil e no mundo. Exemplos vão desde Bill Gates até Elie Horn, fundador da Cyrela, passando por pessoas comuns, como um professor da USP que doou um imóvel para a universidade, até famílias da classe média espanhola, que incluem ONGs em seus testamentos.
A que se deve essa mobilização recente?
A dois fatores somados. O primeiro, de natureza demográfica. A queda da natalidade diminui o tamanho das famílias e aumenta a disponibilidade patrimonial. O segundo, de foro social: há uma maior consciência sobre os problemas do mundo e a incapacidade de solucioná-los exclusivamente pela via convencional – isto é, por meio do Estado. Daí esse incremento na "cultura de doação".
Termo corrente no terceiro setor, ele descreve a predisposição em apoiar causas e entidades sem fins lucrativos de maneira contínua, e não episódica. Sabe-se que a caridade é relativamente comum; a pandemia e as enchentes gaúchas mostraram que, diante de grandes hecatombes, a sociedade se mobiliza. Difícil é fazer as famílias incorporarem o auxílio aos mais necessitados em seu orçamento mensal.
Inclusive o das mais ricas. Uma pesquisa revelou que domicílios com renda até quatro salários mínimos doam proporcionalmente mais do que aqueles mais abastados. Para incentivar estes últimos, ONGs querem que a Receita Federal permita direcionar parte do imposto de renda devido a entidades específicas, e não a um fundo genérico, como ocorre atualmente. "A medida, além de facilitar o processo, poderia ampliar significativamente o número de doadores no país", defende um especialista.
Ou seja, tornar as coisas mais favoráveis a quem se dispõe a fazer o bem — para que a generosidade, afinal, não doa a quem doar.
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