(Não) sorria, meu bem
"Escritora séria não sorri", dizia Clarice Lispector, como que a justificar a expressão melancólica e enigmática que carregava nas fotografias. Hoje, talvez a juventude entenda a ausência de uma feição simpática menos como uma reivindicação de gravidade poser do que de insubmissão às convenções sociais – especialmente aquelas que vigoram nos ambientes de trabalho.
É o que sugere a notícia de que o McDonald's do Japão lançou uma campanha publicitária para atrair jovens atendentes para suas lojas justamente ao ressaltar a desobrigação de sorrir no emprego. "Trabalhe com seu estilo" foi o mote, substituindo o tradicional "trabalhe com seu sorriso". O cliente saberá entender e respeitar as caras fechadas no balcão, presume-se.
Eis aí uma novidade que oculta mais do que um capricho "aborrescente" ao qual uma multinacional se submete por falta de mão-de-obra. O sorriso obrigatório foi o símbolo das eras do cliente e do patrão, e sua recusa pela juventude japonesa, num país conhecido pela amabilidade no trato pessoal e pela longevidade nos empregos, um possível sinal da exaustão de ambos.
O sorriso forçado não era apenas um empenho emocional de substituir qualquer estado de espírito por outro, conveniente e sob medida, ao longo de seis ou oito horas de pé no guichê de uma lanchonete. Representava a subordinação a quem paga a conta, direta (empresário) ou indiretamente (consumidor); um sinal de resignação frente ao mundo, dividido entre os que mandam e os que obedecem.
Mais do que um traço geracional positivo, dado que supostamente "autêntico", a resistência a sorrir é o emblema do desalento. De descrença no receituário antigo que prescrevia ingressar cedo no mercado de trabalho e nele permanecer, empregável, décadas a fio, adaptando a própria vida às exigências do patronato. Essa ilusão se desfez, e o fim do sorriso forçado é somente seu símbolo.
Malaise que não se restringe à ilha. Na vizinha China, tem-se falado do investimento estéril de dedicar tempo e dinheiro à própria carreira e se ver preterido das possibilidades de ascensão social, afuniladas em função do crescimento econômico insuficiente para absorver tanta gente qualificada. Por lá, a juventude rebelde incentiva seus pares a esforçar-se ao mínimo ou inclusive a não trabalhar, em sinal de protesto. Talvez os jovens chineses até sorrissem numa boa em seus empregos — se tivessem um ou vissem perspectiva de evolução nos atuais.
No filme "Triângulo da Tristeza", um fotógrafo orienta modelos masculinos a alternarem expressões felizes e sérias ao comando do nome de grandes marcas de moda: o magazine popular H&M, no primeiro caso, e a maison de luxo Balenciaga, no segundo. Num deles, ele é bem explícito ao incitar os pupilos: "H&M, somos tão baratos, somos tão felizes!".
Forçar-se a sorrir já não é mais tão barato - e fazê-lo espontaneamente, então, cada vez menos provável.
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