Pai, Mãe, Irmã, Irmão: um filmaço

As três histórias são ótimas
A segunda história tem como palco a bela Dublin, onde duas irmãs vão se encontrar com a mãe

Eu tive um sogro para quem o melhor filme que ele tinha visto era sempre o último. Minha sogra piscava um olho maroto, sorria e me dava a entender que a memória declinante fazia com que ele apagasse os anteriores, daí a resposta cômoda e invariável. Será que já estou acometido do mesmo mal? Se for, aceito o ônus, contanto que possa dar o devido lugar a esse filme genial de Jim Jarmusch, cujo título preguiçoso me indispunha a vê-lo até que a hora chegasse. No fim de semana, ela chegou.

Do que ele trata? Pois bem, são três histórias cujos enredos não se comunicam, mas que flertam entre si através de uma simbologia compartilhada. Nos três episódios, temos digressões sobre a água, skatistas, relógios Rolex e um divertido brocado britânico. Todos esses elementos descosturados na aparência se entrelaçarão de forma quase divertida mais adiante. Em comum às três histórias, pais distantes e um par de filhos um tanto quanto desorientados. Falemos brevemente sobre cada uma delas.

(Mas não se esqueçam: o meu compromisso quando falo de cinema, de teatro, de livros, de restaurante ou de viagens não é o de me antecipar à experiência de quem me lê aqui. É, antes de tudo, um estímulo para que vocês vão conferir e, quando for o caso, desmascarem as bobagens que eu possa ter dito. Aliás, quem já viu o filme objeto deste longo palavrório introdutório, que se pronuncie e me diga se estou certo ou se me equivoquei por completo. Vamos lá.)

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A primeira história se passa no Nordeste dos Estados Unidos. Um irmão e uma irmã visceralmente cansativos estão a caminho de uma paisagem lacustre onde mora o pai. No caminho, conversam platitudes como se fossem dois estranhos, com uma cerimônia que mais lembra o padrão de convívio familiar dos paulistas. Há um excesso de respeito, uns ademanes de polidez e discrição, e um diapasão temático que vai pouco além da meteorologia. Pisam em ovos porque uma simples pergunta pode soar invasiva. Francamente.

Na casa do pai, reina uma deliciosa desordem. O filho traz uma cesta de delicatessen que o velho aprecia e ambos tentam fazer um balanço para saber se ele está se cuidando, se está medicado, enfim, como vai a vida. O telefone fixo está cortado, apesar de ele estar usando um Rolex. O carro está enferrujado e o brinde é com água da torneira. A visita se arrasta com perguntas formais e é com alívio que o velho os leva à porta para se despedir. Mal eles pegam a estrada, algo fundamental vai mudar. O que será?

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A segunda história tem como palco a bela Dublin, fato que me encheu de saudades dessa cidade onde passei belos dias em fevereiro. Duas irmãs vão se encontrar com a mãe. Na verdade, elas só se veem uma vez ao ano apesar de viverem na mesma cidade. A mãe é escritora, mas odeia falar dos seus livros. Trata as filhas segundo um protocolo que poderia ser o da realeza. A filha Timothea — francamente — fala da promoção a curadora dos prédios de valor histórico da cidade. Lilith, de Rolex no pulso, não acha um prumo.

Indagada pelas duas sobre seus progressos, ela tartamudea que é influenciadora, mas que não está com vontade de se explicar. Promete, contudo, que no chá do próximo ano vai dizer do que se trata. Despedem-se com votos de sucesso mútuo e Lilith, cheia de dedos, pede à mãe que chame um Uber pelo telefone dela, visto que está com problemas na conta, apesar de ela só tomar água da Islândia. A pobreza das conversas jamais derruba o filme. Nos dois episódios, uma pessoa com inglês básico não precisa ler as legendas.

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A terceira e última história se passa em Paris, no 11ème arrondissement. Um casal de gêmeos negros faz uma última visita ao apartamento que foi dos pais, recentemente falecidos. Na arrumação das velharias que o filho fez, antes da chegada dela, encontrou um Rolex estropiado, dezenas de carteiras de identidade falsas e até uma certidão de casamento fria. Ambos riem dessas peripécias, como se adentrassem um mundo que não imaginavam existir. Eles tinham morrido por uma falha de pilotagem aérea do pai nos Açores.

Se esse detalhe deixa pairar alguma dúvida de coerência contextual, tudo se esclarece à medida que eles admiram as fotos dos pais. Ambos eram brancos e os atestados de nascimento dos gêmeos — estes autênticos, afinal — diziam que eram nascidos em Nova York. Pelas ruas de Paris, circulando num carro velho e batendo o ponto em alguns traficantes, os dois falam de suas vidas à luz mutante das névoas das origens. O que fariam doravante? O que mais havia para explorar?

As três histórias são ótimas e, querem saber, viva o cinema!

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Agora é a vez de vocês falarem.

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Quarta, 06 Mai 2026

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