Chorando se foi o rock

Ou seria...a música?

Anos atrás, quando comentei que tinha ido a um show dos Titãs, minha prima, que regula em idade comigo e compartilhava o gosto pelas bandas nacionais na adolescência, perguntou: "Ainda se ouve rock?".

Boa questão. De fato, na plateia do Teatro do Bourbon Country, naquela noite de junho, praticamente só havia fãs 40+, enquanto no palco um trio de músicos sessentões entoava hits dos anos 1980 e 1990. O rock já não é mais o mesmo — e minha prima não foi a primeira a perceber.

Jornalistas que acompanharam a ascensão desse gênero musical no Brasil, concentrada nas duas décadas finais do século passado, vinham lamentando sua desimportância há alguns anos. E tentando explicá-la. Um deles, Ricardo Alexandre, por exemplo, propôs uma teoria interessante. Como o rock historicamente representou uma forma de contestação aos costumes, aos poderes e às instituições tradicionais, o desgaste gradual de seus alvos preferenciais contribuiu para que não houvesse mais ao que se opor — e, portanto, motivação para formar uma banda e escrever canções. Numa sociedade liberal em condutas e desconfiada de todas as formas de autoridade, sobrara pouco contra o que se debater. E o estilo, apropriado para canalizar sentimentos de revolta e indignação, acabou confinado àquilo a que toda música sempre se prestou precipuamente: a diversão.

Seu contemporâneo, Mario Marques, situa na ascensão da lambada, em fins dos anos 1980, este ponto de virada: ouvindo "Chorando se foi" numa boate, concluiu que "a música para se escutar, para se refletir, para se pensar no futuro, havia acabado" (p. 36). Tinha início a era do som para curtir e dançar, simplesmente.

O resultado é observável atualmente. "Há bandas (...) [m]as (elas) não têm importância social, e nunca mais terão. São só música, tudo o que o rock jamais pode se resignar a ser", lamenta André Forastieri (p. 14).

A análise faz sentido, mas soa um tanto datada, pois restrita ao rock. Hoje, a despeito das megaturnês e dos festivais, a sensação é de que a própria música deixou de ser a manifestação artística líder em preferência e envolvimento dos jovens para se tornar apenas mais um componente do entretenimento, centrado no audiovisual dos streamings e das redes sociais e nos grandes eventos ao vivo — não por acaso chamados de "experiências", pois não se resumem a cantores e conjuntos e são fartos em atrações laterais. O declínio da relevância do rock foi seguido pelo da música popular em geral.

Sensação compartilhada pelo produtor Rick Bonadio, responsável por sucessos como Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr. "Hoje a música não tem tanta importância na vida das pessoas. [E]u fiz isso a vida inteira e nem sei se serve para alguma coisa" (em vídeo, por volta dos 4 minutos).

Para acompanhar videozinhos do TikTok, quem sabe.

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Segunda, 13 Abril 2026

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