Um dilema que pode favorecer o agronegócio

Ao mesmo tempo em que o continente asiático sofrerá com a fome, também aumentará o número de pessoas obesas no horizonte da próxima década

Em 11 de julho foi comemorado o Dia Mundial da População. Dessa vez, em plena pandemia de Covid-19 e com
8 bilhões de pessoas no mundo disputando espaço, alimentos e água. Com os agravantes do envelhecimento de parcelas significativas das populações da Ásia, Europa, Brasil e Estados Unidos; a permanência de 800 milhões de famintos; e expressivo aumento da obesidade na maior parte da Ásia, Estados Unidos, México e Brasil. Portanto, mais do que nunca o cenário mundial assusta, dos pontos de vista populacional e alimentar: somos 3 bilhões de habitantes a mais do que em 1987, 4 bilhões a mais do que em 1974 e 5 bilhões a mais do que em 1960.

Estima-se que a quantidade de pessoas passando fome no mundo aumente para 1 bilhão, em 2021, por causa da pandemia, e a de pessoas com sobrepeso e obesidade para quase 2 bilhões. Esses dois grupos caminharão em direções opostas até 2030, com o retorno dos famintos ao patamar de 800 milhões (60% deles na Ásia), e o de pessoas com sobrepeso e obesidade – inclusive crianças e adolescentes – elevando-se a quantidades e proporções inacreditáveis.

Para o agronegócio, porém, todas as projeções relativas ao aumento das demandas mundiais até 2030 são animadoras. A começar pelo aumento da produção agropecuária no Brasil, segundo o estudo Visão 2030: o futuro da agricultura brasileira, que analisa as variáveis atuais e as suas tendências. Infelizmente, o estudo é superficial em relação aos impactos que o envelhecimento populacional, a parcela faminta, e a obesidade e o sobrepeso poderão produzir nas demandas e preços dos produtos agropecuários.

Dada a importância do setor agropecuário para a economia nacional – contribuiu com superávits na balança comercial de US$ 87,7 bilhões, em 2020, e de US$ 83 bilhões, em 2019, e o peso da China, Índia, e de outros países da Ásia, para o total de US$ 101 bilhões de exportações agropecuárias em 2020, é preciso estudarmos melhor os cenários possíveis do mercado asiático de alimentos em 2030. Contribui para isso o estudo Perspectivas Agrícolas 2020-2029, elaborado em conjunto pela Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nele analisa-se as alterações produzidas pela pandemia da Covid na produção, distribuição e acesso a alimentos, comparando o período 2017-2019 com o que é esperado para 2024-2029. Projeta-se aumento do consumo e importações de alimentos para a China. A única exceção em importações é a dupla pescados/frutos do mar, cuja produção (62,2 milhões de toneladas), muito superior ao consumo (55,7 milhões de toneladas), permite à China exportar 8,2 milhões toneladas anuais. Em 2029, o país deverá produzir 10 milhões de toneladas a mais, liderando exportações.

A disparidade do poder aquisitivo: pela paridade do poder de compra, em 2019, a renda per capita na Índia foi de US$ 6,7 mil, e a da China US$ 16,1 mil

Chamam a atenção pelo absurdo os números de produção, consumo, importações e exportações da Índia, comparados com os da China. Apesar de os dois países terem a mesma quantidade de habitantes (1,4 bilhão), a produção chinesa de alimentos é mais do que o dobro da indiana. As diferenças de consumo entre a China e a Índia no período 2017/2019 são gritantes (trigo: 125/98 milhões ton.; milho: 278/28 milhões ton.; soja: 104/12 milhões ton.; arroz: 146/100 milhões ton). Não, não é erro de digitação: a China consome dez vezes mais milho, 8,5 vezes mais soja, quase metade a mais de arroz, e 25% a mais de trigo do que a Índia. Evidentemente, a China compra no mercado mundial grandes quantidades desses alimentos. A Índia não importa quase nada: o consumo, de acordo com os números publicados, é semelhante à sua produção.

Maior consumidora (e importadora) de soja do mundo, com 104,2 milhões de toneladas, a China seguirá comprando muito em 2029 – das atuais 87 milhões de toneladas para 104,5 milhões de toneladas. Idem com o milho (4,2 milhões ton. para 7,2 milhões ton.), trigo (3,4 milhões ton. para 9,6 milhões ton.), arroz (3,2 milhões ton. para 4,4 milhões ton.), açúcar (4,8 milhões ton. para 6,3 milhões ton.) e algodão (1,7 milhão ton. para 1,9 milhão ton.). A China elevará também as importações de queijos (378 mil ton. para 447 mil ton.) e manteiga (106 mil ton. para 142 mil ton.) e diminuirá um pouco as importações de carnes. Esses números evidentemente interessam muito aos exportadores e produtores do agronegócio brasileiro, porque a China compra 73% de toda a soja exportada pelo Brasil, fato que proporcionou uma receita de US$ 34,5 bilhões no ano passado.

Maior compradora de produtos agropecuários do mundo, a China continua investindo muito para diminuir o volume de importações de alimentos, com estratégias para garantir a soberania e segurança alimentares do país – o projeto "Vitalização Rural", de caráter nacional, lançado no final de 2018, e o aumento da quantidade de fornecedores, via estímulo à produção em países africanos. Esses aspectos não foram considerados nos estudos da Embrapa e da FAO/OCDE, e graças a eles a China novamente nos surpreenderá. Se isso realmente acontecer, e a Índia continuar modesta compradora, o agronegócio no Brasil terá "excesso de capacidade instalada" no Centro-Oeste, semelhante à desindustrialização que o Brasil enfrenta desde os anos 1990.

Será difícil aumentar as vendas agrícolas para a Índia, mais do que foi vender para a China no início dos anos 2000. Hoje com os mesmos 1,4 bilhão de habitantes, a diferença essencial dos mercados alimentares da China e da Índia é o poder aquisitivo: pela paridade do poder de compra (PPP), em 2019, a renda per capita na Índia foi de US$ 6,7 mil, e a da China US$ 16,1 mil. Para efeito de comparação, a do Brasil foi US$ 14,7 mil. Ao mesmo tempo, a China e a Índia deverão se tornar os recordistas em obesidade infantil, de acordo com projeções da Federação Mundial da Obesidade para 2030 – quando se espera para ambos um total de 89 milhões de crianças e adolescentes (de 5 a 19 anos de idade) nessa condição, 35% do total previsto para o mundo (254 milhões). O Atlas of Childhood Obesity, da World Obesity, publicado em outubro de 2019, considera que haverá então 42 países no mundo com 1 milhão ou mais de crianças e adolescentes com obesidade. Do total mundial de 254 milhões, 144 milhões (56,7%) estarão em 19 países da Ásia.

Um novo estudo intitulado Covid-19 and Obesity: The 2021 Atlas, publicado em março deste ano, apresenta as projeções para 2025 de todos os países, confirmando a gravidade da situação na Ásia, com grande destaque para o Oriente Médio. Também o México, Estados Unidos e a Nova Zelândia, nações nas quais a parcela obesa da população adulta deverá ficar entre 40% (homens) e 50% (mulheres), e a de crianças e adolescentes 20% ou mais. No caso norte-americano, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) oferta dados sobre as dimensões do sobrepeso e obesidade da população.

Junk food
Ainda que tais previsões espantem, elas fazem todo o sentido, porque são compatíveis com o estilo de vida das grandes cidades do mundo, nas quais as pessoas movimentam-se cada vez menos e ingerem cada vez mais calorias. Essa disparidade entre necessidade e consumo de alimentos explica porque, em 2030, deverá haver 62 milhões de crianças e adolescentes com obesidade na China, 27 milhões na Índia, 17 milhões em solo norte-americano, 9,1 milhões na Indonésia e 7,7 milhões no Brasil, os cinco países com as maiores quantidades em termos absolutos do mundo. É possível que em 2030 aumente muito também a quantidade de adultos nessa condição – 650 milhões com obesidade em 2016, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) superando os 800 milhões de famintos esperados para 2030, segundo a FAO.

Os EUA precisam mudar radicalmente seu consumo elevado de refrigerantes, cerveja, carnes, doces e os famosos junk food

Maior disponibilidade e acesso a calorias e o sedentarismo crescente – resultante da combinação de espaços menores para brincar e praticar esportes e o acesso a "n" formas de entretenimento tecnológico praticamente imóveis – resultaram na epidemia de obesidade que assola boa parte do mundo. Em muitos países, o problema não é o excesso de comida, mas sim a falta dela; e em outros, como o Japão, a tradição de hábitos alimentares saudáveis ainda é dominante. Com a previsão de 48,9% de sua população estar obesa em 2030 (164 milhões de habitantes), e 1,8 milhão de cirurgias bariátricas realizadas, de 2011 a 2019, de acordo com a Sociedade Americana de Cirurgia Bariátrica, os Estados Unidos precisam mudar radicalmente seu consumo elevado de refrigerantes, cerveja, carnes, doces, os famosos junk food, o sedentarismo juvenil e o uso intenso de carros.

China e Índia somadas possuem 8,5 vezes a população dos Estados Unidos. Se acompanharem os norte-americanos na proporção de pessoas com obesidade, haverá um aumento fantástico da demanda mundial de alimentos, com consequente elevação dos preços, e por isso aumento da quantidade de pessoas passando fome, porque para quem sobrevive com menos de US$ 1,9 por dia, qualquer centavo a mais no preço dos alimentos significa comida a menos. A situação é realmente preocupante para a saúde e a economia mundiais, conforme demonstra o estudo Obesity – Health and Economic Consequences of an Impending Global Challenge do Banco Mundial, de 2020.

Assusta saber que ocorrerão grandes aumentos da proporção de crianças e adolescentes com obesidade, no período 2010/2025, de acordo com o Atlas 2021 Covid-19 e Obesidade: Índia, de 1% para 5,1%; Indonésia, 3,9% para 10,7%; e China, de 6,5% para 20,3%. O destaque negativo principal é a Arábia Saudita (14,1% para 21,7%), país que deverá ampliar também a quantidade de adultos com obesidade: mulheres de 40,5% para 49,1% e homens de 27,2% para 40%. Líbia, Líbano, Kuwait, Iraque, Irã, Qatar, Omã e Jordânia têm números parecidos. Essa situação da Ásia (com raras exceções) é semelhante à de obesidade dos Estados Unidos, México, Brasil e da Europa.

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Quarta, 01 Dezembro 2021

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