O terror da má gestão

O 11 de setembro revelou um inimigo interno
A invasão do Afeganistão, iniciada logo depois do nine-eleven, teve de dividir recursos e atenções com a do Iraque, totalmente desnecessária, visto que motivada por um misto de personalismo e interesses escusos

"Não existem países subdesenvolvidos, e sim países subgerenciados", disse certa vez Peter Drucker. A afirmação pode soar como uma simplificação grosseira para sociólogos e cientistas políticos esmerados em entender por que nações triunfam ou fracassam, mas tem lá sua razão de ser. Estados nacionais dependem de instituições para funcionar, e estas nada mais são do que organizações – que, como todas as outras, precisam ser administradas. Se a capacidade de gestão não explica tudo na trajetória de um país, isenta de responsabilidades pelos resultados por ele alcançados também não está.

Escrevo isso a pretexto dos 20 anos do 11 de setembro, que revelaram uma jornada do mais puro mismanagement dos Estados Unidos na luta contra o terror, daqueles dignos de figurar em estudos de caso de MBAs mundo afora.

Segundo a série Ponto de Virada (Netflix) e matérias da imprensa, os próprios atentados decorreram de falhas gerenciais das agências de inteligência. FBI e CIA "estavam cientes de que havia algum tipo de conspiração em curso. Mas tal era a rivalidade entre" as duas burocracias que elas "guardaram o que sabiam para si". O primeiro relatório alertando para os planos da Al Qaeda datava de dezembro de 1998, de modo que "as pistas estavam lá, mas ninguém ligou os pontos a tempo".

A famigerada falta de foco de que tanto se acusam companhias ávidas pela diversificação também fez parte do rol de barbeiragens norte-americanas. A invasão do Afeganistão, iniciada logo depois do nine-eleven, teve de dividir recursos e atenções com a do Iraque, totalmente desnecessária, visto que motivada por um misto de personalismo e interesses escusos. Um militar entrevistado na série da Netflix afirma que simplesmente "não havia estratégia" na nova empreitada, um óbvio atalho para a derrota – nos negócios e nas guerras.

E para mostrar que ignorar o lado soft do management também pode contribuir para uma derrocada, vale citar "o analfabetismo cultural com que militares dos EUA lidaram com afegãos" (Valor Econômico, 10/09/21). "A grande maioria raramente interagia com as pessoas locais, quase nunca saíam de seus prédios cercados e protegidos, não sabiam que usar óculos escuros ao falar com afegãos denota pouco caso porque para estes é importantíssimo olhar os olhos do interlocutor e homens dirigiam-se diretamente a mulheres afegãs, desrespeitando uma das mais estritas regras da cultura nacional". Faltou um antropólogo nas tropas, pelo visto.

Lições? Bem, professores gostam de diferenciar eficácia de eficiência. Eficaz, a guerra contra o terror até se mostrou, ao menos para os EUA. Osama Bin Laden foi morto e não se repetiram atentados no território norte-americano no período. Eficiente, nem um pouco. Cinco trilhões de dólares foram gastos, somando Afeganistão e Iraque, um terço deles em vão, perdido entre a incompetência e a corrupção. Isso, claro, sem falar em vidas ceifadas e traumas e rancores acumulados que, a esta altura, ajudam a gestar novas células extremistas naqueles cantos do planeta – numa demonstração de que, para empresas e países, o inimigo interno do subgerenciamento pode ser tão poderoso quanto o externo, seja ele um concorrente ou um grupo terrorista.

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Quarta, 01 Dezembro 2021

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