Devagar, quase parando
A morte do criador do slow food
Roma, 20 de abril de 1986. Centenas de manifestantes reúnem-se na histórica Piazza di Spagna para um ato de repúdio contra o recém-aberto McDonald's, o primeiro na Itália. Munidos de microfone, cartazes e pequenos fogareiros nos quais preparavam massa al dente, denunciavam a corrupção dos costumes pelo fast food, exaltavam a culinária tradicional e acusavam a rede norte-americana de contribuir para a degradação do centro da Cidade Eterna.
Não, pelo contrário. Tanto que, ao morrer, no último dia 21 de maio, foi devidamente reconhecido e reverenciado. O problema é que ele lutava contra uma das tendências mais profundas da modernidade. Desde a Revolução Industrial, a sociedade caminha em direção ao disciplinamento do tempo e à consequente otimização de todas as atividades que não contribuem para fins socialmente valorizados, como trabalhar, estudar e produzir. Comer tornou-se uma delas.
Entre os ativistas estava Carlo Petrini, que três anos depois criaria o movimento slow food, conhecido internacionalmente por pregar uma alimentação baseada em ingredientes locais, não-industrializados e consumidos em refeições sem a pressão do relógio. De lá para cá, a ideia original de Petrini ganhou o planeta e gerou uma série de derivações, como o slow travel e o slow fashion, tornando-se um verdadeiro sinônimo de resistência à velocidade e à padronização global da nossa época. No mesmo período, o McDonald's abriu mais de 700 lojas na Bota e chegou a 45 mil no mundo.
Petrini fracassou, então?
Não, pelo contrário. Tanto que, ao morrer, no último dia 21 de maio, foi devidamente reconhecido e reverenciado. O problema é que ele lutava contra uma das tendências mais profundas da modernidade. Desde a Revolução Industrial, a sociedade caminha em direção ao disciplinamento do tempo e à consequente otimização de todas as atividades que não contribuem para fins socialmente valorizados, como trabalhar, estudar e produzir. Comer tornou-se uma delas.
Petrini fez um belo trabalho empunhando uma bandeira meritória, mas era obviamente incapaz de deter o trem da História. Não chega a surpreender, aliás, que seus obituários lembrassem uma antiga militância comunista, o que empresta, em retrospectiva, um caráter lírico e político à sua cruzada. Encarava a comida processada e engolida às pressas como parte de um mecanismo maior que submete o homem ao ciclo da máquina às custas de sua saúde física e mental.
Mas não foi original em sua reivindicação, ao menos quando entendida lato sensu. "Em Paris, por volta de 1900, houve uma moda de andar com tartarugas em uma coleira, como forma de "protesto" contra a velocidade da vida urbana trazida pela introdução dos automóveis. Ou seja, antes do slow food já houve o slow life, ainda que sem nome próprio ou marca registrada (algo que a iniciativa de Petrini acabaria se tornando, com logotipo e tudo).
Em vão. Carros e hambúrgueres de fato dominaram o mundo, dando razão a Delfim Netto: o que chamamos de progresso só acontece quando, ao resolver um problema, criam-se outros dois.
Ou vários, no caso.
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