Estrela cadente, gangue desfeita
Infância e juventude são realidades cronológicas e hormonais, claro – mas também são invenções culturais. Muito daquilo que se entende como interesse ou desejo típico de uma criança ou de um adolescente decorre de expectativas sociais moldadas pelo tempo e pelo espaço. E pelo mercado.
Nesse sentido, nenhuma marca incorporou tão bem um ideal de infância no Brasil quanto a Estrela, fabricante de brinquedos que pediu recuperação judicial semana passada. E poucas empresas gaúchas atingiram tamanho grau de identificação com um target quanto a Gang, rede de vestuário jovem que anunciou o fechamento de suas lojas na mesma semana. Lidas em conjunto, as duas notícias apontam para mais do que meros movimentos empresariais. São o reflexo de infâncias e adolescências diferentes daquelas que muitos de nós experimentaram até o fim do século passado.
No caso da Estrela, o combo que a derrubou atende por questões macroeconômicas, concorrência chinesa e, claro, digitalização dos meios de entretenimento infantil. Um processo que começou com videogames e computadores, passou pelos gameboys portáteis e chegou aos celulares. Não deixa de ser curioso que, quase simultaneamente ao anúncio de concordata da companhia, divulgava-se o resultado de um estudo internacional mostrando que a capacidade das crianças brasileiras de organizar e concluir tarefas com foco e disciplina é menor do que a média internacional (Matemática na primeira infância | Naercio Menezes Filho | Valor Econômico). Habilidades que brinquedos analógicos exigem (ou ajudam a desenvolver) muito mais do que a rolagem de tela nas redes, certamente.
A situação da Gang, comercialmente, é um pouco diferente, mas culturalmente parecida. Baixa as portas de suas lojas, sim, mas transfere marca e mercadorias para seções, corners ou minilojas dentro dos pontos-de-venda da Pompéia, o grande magazine que a controla. E conserva o e-commerce, prova maior de que seu nome perdurou como ativo valioso. O que pereceu foi a ideia de lojas como ponto de encontro de turmas e tribos. É curioso que a fase da vida mais associada à socialização dispense estabelecimentos físicos pelos mesmos motivos que aposenta bonecas e jogos de tabuleiro: a preferência pela interação (ou o isolamento) via celular (Para onde foi a 'bruta flor do querer'?).
Butiques de roupa teenager historicamente eram lugares de reunião de iguais, a começar pelos vendedores. Não por acaso o primeiro anúncio de recrutamento para atendentes da Gang pedisse por "carinhas e cocotas": era a gíria setentista demarcando um território, o da "loja que te entende". Hoje, aqueles que supostamente compreendem os jovens estão todos online e, às vezes, nem humanos são, como bem demonstram as conversas com IAs.
Volta e meia explica-se uma atitude incomum de crianças ou adolescentes descrevendo-a como "apenas uma fase". Ao se observar o uso intensivo que adultos fazem de celulares e redes sociais, será que dá para se referir assim à guinada comportamental que vitimou Gang e Estrela?
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