O mundo anda tão complicado...

...que a alienação até parece uma saída aceitável

Chamar alguém de "alienado" já foi um xingamento. Quer por indicar desengajamento político, quando este parecia obrigatório, quer por caracterizar passividade diante da indústria cultural e de seus apelos fáceis, alienação era sinônimo de frivolidade, superficialidade ou mera omissão. Um descompromisso com tudo o que não fosse o "eu".

Hoje, contudo, pode se tornar um reclamo justo em prol da saúde mental.

É o que se depreende de duas crônicas. A mais recente, de autoria de Paulo Germano, lamentava o fim da Copa do Mundo, período no qual o jornalista se deu ao privilégio de "ignorar o que importava". Com ótimos resultados, segundo ele: "foi a glória" (aqui, para assinantes: "O prazer de ser um alienado" | GZH).

Nada muito diferente do que expressava Lusa Silvestre, dois anos antes, no Estadão: "eu cansei. Chega de pensar a moral da história o tempo todo. Não quero mais a obrigação de ser um ser social consciente. As pessoas problematizam tudo. Eu quero o simples" (também para assinantes, aqui: "Me deixem ser um idiota no sofá. Só quero saber de conteúdo escapista, da vida simples, de ser feliz" | Estadão).

Semelhante na forma, a rebeldia de um e de outro difere na origem. Enquanto o gaúcho teme principalmente o conflito político das eleições que se avizinham, o paulistano é mais generalista: quer distância do noticiário e das discussões intermináveis, sim, mas também de restaurantes que abusam do storytelling e de seriados e filmes-cabeça no streaming.

Bom, para parte da insatisfação de Silvestre há remédio. O acrônimo "K.I.S.S." ("Keep It Simple, Stupid") é um lembrete às empresas de que supersofisticar produtos e serviços pode ser um mau negócio, gerando uma fadiga decisória no consumidor, chamado a escolher entre atributos que nem sempre consegue entender. Como bem diz o cronista, "outro dia fui num (restaurante) tailandês e o garçom (...) se ajoelhou sorridente na altura da mesa e fez um animado tutorial (...)". Ao que o cronista, quase indignado, rebateu: "comer não tem segredo: abre a boca, mastiga, engole". É por aí.

Já para o temor de Germano, talvez não haja remédio. Embora abster-se de discussões políticas nas redes sociais possa ser uma medida profilática, ignorar o que está ocorrendo à volta — ou simplesmente não votar — pode significar apoio implícito a uma das partes na disputa; com a qual nem sempre simpatizamos. Em outras palavras, não escolher é um jeito de...escolher.

Até a alienação, veja só, tem de ter hora certa para acontecer.

Veja mais notícias sobre Comportamento.

Veja também:

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Quarta, 12 Agosto 2026

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://amanha.com.br/