A China não cabe em 40 minutos

A velocidade das viagens de negócios contrasta com a complexidade de um país que exige tempo para ser compreendido em suas múltiplas dimensões
Entre arranha-céus, tradições milenares e transformações aceleradas, o gigante asiático revela dimensões que só a experiência direta permite descobrir

Fui convidado, há pouco tempo, para palestrar para um grupo que viajaria para a China para visitar empresas e instituições em três grandes cidades. A proposta que me fizeram era de "apresentar a China" para o grupo no aeroporto de Guarulhos, pouco antes de embarcarem. Tempo para a minha apresentação: 40 minutos. Haja capacidade de síntese, "apresentar" o país milenar para leigos em pouco mais de meia hora. E fazer isso em um momento no qual as pessoas deviam estar com mil coisas na cabeça, pois logo entrariam em um avião para viajar dois dias para o outro lado do mundo.

O meu minicurso a respeito da China mais enxuto tem seis horas de duração. O curso padrão tem 20 horas, e é ministrado desde 2020. E o curso que considero de tamanho suficiente, com 80 horas, ainda está por ser realizado (um dia, quem sabe?). Conhecer minimamente os porquês e como a China revolucionou tudo a partir de 1980, com o seu programa de reformas e abertura é trabalho que exige um tempo considerável. Contar os 30 anos iniciais, desde a proclamação da República Popular da China, em outubro de 1949, até a aprovação das reformas e abertura, em dezembro de 1979, exige explicar passagens tumultuadas, passando da Revolução Agrária (1950/1953) à Revolução Cultural (1966/1976), e ainda pela briga política feroz após o fracasso do "Grande Salto Adiante" (1958/1962) que resultou na Grande Fome.

São muitas áreas do conhecimento, tudo muito grande e complexo. Como não dedicar um bom tempo a figuras como o filósofo Confúcio e o estrategista militar Sun Tzu, que viveram há mais de 2.500 anos, e cujas obras são lidas até hoje, em várias línguas, no mundo todo? País com um milhão de quilômetros quadrados a mais que o Brasil, perde em área útil, porque mais de um terço da China é tomada por desertos nas regiões norte e oeste. Desertos que estão sendo aos poucos recuperados, como os de Kubuqi e Mu Us, em Ordos, na Mongólia Interior. Com uma fração da água que o Brasil possui, a China é obrigada a se virar para abastecer 1,4 bilhão de habitantes e muitos bilhões de aves e centenas de milhões de outros animais criados para o consumo humano.

Parece que quem quer conhecer a China hoje só está interessado no seu desenvolvimento em ciência, tecnologia e inovação e na diversidade de produtos industriais. Mas conhecer o país implica em saber também de suas vulnerabilidades naturais: além da severa escassez hídrica e área agricultável cada vez menor, a China caminha para um colapso populacional, com redução crescente de nascimentos e aumento rápido da quantidade de pessoas idosas. Essa combinação deverá resultar, no final do século, em menos da metade da população atual, de acordo com as estimativas de 2024 da Divisão de População das Nações Unidas. Com o fato inédito de que, então, possivelmente metade do total de habitantes da China serão pessoas idosas.

Enfim... acabou não dando certo a tal palestra "vapt-vupt", mas ficou a curiosidade a respeito da "imersão" na China feita "a toque de caixa" – 12 dias no total, sendo oito no país e quatro viajando. Descobri que virou moda esse tipo de serviço, com promessas de se conhecer o país e aspectos importantes para ser bem-sucedido na realização de negócios com empresas chinesas. Quem vai para a China, avança 11 horas no tempo, o que costuma exigir uma semana para o organismo se acostumar com o novo fuso horário. Se a estadia na China se resumir a essa semana, significa que o organismo recém-ajustado será desajustado logo em seguida, com as mesmas 11 horas, só que dessa vez voltando. Resultado: mais uma semana para o fuso normalizar. Por isso, se recomenda que viagens à China devem ser de no mínimo 15 dias.

É ótimo que haja tantas ofertas de viagem de imersão na China, ainda que muitas sejam rápidas. Quem quer mergulhar no mundo corporativo chinês tem hoje várias opções, pois pode escolher a que lhe parecer mais de acordo com suas necessidades. Como o investimento é alto, melhor se preparar bem antes de encarar o desafio. Há cursos a respeito da China na internet e há vários livros sobre o país, com diferentes enfoques. Se a viagem durará no total 12 dias, considere destinar tempo igual para ler e assistir cursos e documentários antes de embarcar. Quanto mais souber antes, mais aproveitará o seu investimento (ou da sua empresa/instituição).

Quem quer realmente começar a conhecer a China precisa ir para lá com tempo. Reservar o mês de férias para isso seria o ideal. Vá com tempo e muita paciência para lidar bem com as diferenças. Pesquise bem antes para definir o roteiro de maneira a lhe permitir combinar visitas a cidades grandes e médias, andar bastante de trem e metrô, passear por pontos turísticos e por áreas menos badaladas. Visitar supermercados, mercados públicos, ir a bairros distantes, comer em restaurantes populares. Ir às muitas praças e parques, ao cinema (assistir um filme em mandarim é algo impactante), bibliotecas públicas, grandes feiras (ocorrem mais de 800, a partir de março até o início de dezembro).

Hoje está infinitamente mais fácil viajar pela China do que há 29 anos, quando estive lá a primeira vez. É incomparável. Para começo de conversa: se forem para ficar até 30 dias, brasileiros não precisam de visto. Com o celular é possível se virar com tudo, sejam os pagamentos à tradução da conversa, do "DiDi" à passagem na catraca do metrô. Como viajar é sempre melhor se for com amigos de verdade (o escritor Mark Twain dizia que se você quer realmente conhecer uma pessoa, viaje com ela...). Por isso, avalie formar um grupo de oito amigos e se organizem para começar a conhecer o país que conseguiu a maior proeza da Humanidade: tirar 800 milhões de pessoas da pobreza. E que esse ano criou curso universitário para formar pessoas para viverem e trabalharem no espaço.

Veja mais notícias sobre MundoEconomiaSul for Export.

Veja também:

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Quinta, 17 Setembro 2026

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://amanha.com.br/