Escassez financeira não é apenas falta de dinheiro

A dívida pode parecer uma saída fácil justamente no momento em que ela se torna mais perigosa
Quando a renda aperta, a dívida deixa de ser vista apenas como um problema e passa a parecer uma solução imediata

Quando as pessoas passam por dificuldades financeiras, tende-se a imaginar que todas reagirão da mesma maneira: cortar gastos, planejar melhor e evitar dívidas. A realidade, porém, é mais complexa. Em situações de escassez, parte das pessoas realmente se torna mais cuidadosa. Outra parte, porém, passa a agir de forma mais impulsiva e, justamente por isso, torna-se mais propensa a aceitar dívidas, parcelamentos e crédito fácil.

Uma pesquisa, realizada com 582 adultos nos Estados Unidos, procurou compreender como a sensação de ter recursos insuficientes influencia a maneira como as pessoas enxergam a dívida e como isso afeta sua capacidade de administrar a vida financeira. O estudo intitulado "Um modelo de mediação múltipla da escassez de recursos, da atitude em relação à dívida e do estresse financeiro: evidências dos Estados Unidos" foi publicado no International Journal of Bank Marketing no ano passado pelos pesquisadores Bianca Pinto Carvalho, Clécio Falcão Araujo e Giovanna Buzanello de Vargas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), além de mim.

A principal conclusão é simples, mas importante: quando a renda aperta, a dívida deixa de ser vista apenas como um problema e passa a parecer uma solução imediata. O problema é que essa "solução" costuma trazer alívio no curto prazo e mais sofrimento depois. A escassez não afeta apenas o bolso. Ela também altera a forma como pensamos. Quando alguém está preocupado com prestações, aluguel, contas, cartão de crédito ou outras despesas do dia a dia, parte da sua atenção fica permanentemente ocupada por essas preocupações. Isso reduz a capacidade de planejar, comparar alternativas e pensar no longo prazo.

Pesquisas sobre escassez revelam que dificuldades financeiras consomem energia mental. A pessoa passa a dedicar tanto esforço para resolver os problemas mais urgentes que sobra menos espaço para refletir sobre as consequências futuras das decisões tomadas. Em vez de pensar no que será melhor daqui a alguns meses, a tendência é buscar a alternativa que parece mais fácil ou mais rápida naquele momento. Nessas condições, aumenta a chance de tomar decisões para resolver o problema de hoje, mesmo que isso piore a situação amanhã. Comprar parcelado, recorrer ao cheque especial, usar mais o limite do cartão, atrasar contas ou pegar empréstimos sucessivos pode parecer razoável diante da urgência. Afinal, quando a preocupação é pagar a conta do fim do mês, a necessidade imediata tende a falar mais alto.

Os resultados do estudo mostram que esse processo ocorre principalmente entre pessoas mais impulsivas. Indivíduos com maior tendência a agir sem pensar, comprar por impulso ou buscar recompensas imediatas tornam-se ainda mais favoráveis ao endividamento quando enfrentam escassez financeira. Para esse grupo, a dívida funciona como uma espécie de válvula de escape. Ela permite resolver uma necessidade imediata, manter temporariamente o padrão de consumo ou aliviar a ansiedade daquele momento. Mas, pouco tempo depois, surgem as parcelas, os juros, a dificuldade para pagar contas e a sensação de perda de controle.

Foi encontrada uma associação clara entre atitudes mais positivas em relação à dívida e maior estresse financeiro. Pessoas que concordam mais com frases como "é normal entrar em dívida" ou "prefiro comprar parcelado a esperar juntar dinheiro" tendem também a relatar mais dificuldade para administrar suas finanças, mais preocupação constante com dinheiro e menor sensação de controle sobre a própria vida financeira.

O estudo também identificou outro perfil de comportamento: o das pessoas mais frugais, disciplinadas e acostumadas a economizar. Elas igualmente sentem os efeitos da escassez, mas reagem de maneira diferente. Em geral, continuam evitando dívidas e mantendo hábitos de consumo mais controlados, mesmo em momentos difíceis. Isso sugere que a frugalidade ajuda, mas não resolve tudo. Pessoas naturalmente organizadas financeiramente parecem manter esse padrão mesmo sob pressão. Por outro lado, a escassez não transforma automaticamente alguém em uma pessoa mais cuidadosa. Na prática, o peso das dificuldades financeiras parece aumentar muito mais a impulsividade do que a disciplina.

Essa conclusão ajuda a entender por que muitas famílias acabam entrando em um ciclo difícil de interromper. Primeiro, surge a redução de renda ou o aumento das despesas. Depois, cresce a necessidade de recorrer ao crédito para enfrentar o problema imediato. Em seguida, aparecem os juros, as parcelas e a dificuldade de pagamento, o que amplia ainda mais o estresse financeiro. Esse estresse, por sua vez, reduz novamente a capacidade de planejamento e favorece novas decisões impulsivas.

É preciso ajudar as pessoas a lidar com impulsividade; a necessidade e o desgaste emocional podem falar mais alto do que o conhecimento


As conclusões do estudo têm implicações importantes para famílias, empresas e governos. Durante muito tempo, acreditou-se que bastava ensinar educação financeira para que as pessoas passassem a tomar decisões melhores. Ensinar a diferença entre juros simples e compostos, explicar como funciona um orçamento ou orientar sobre cartão de crédito certamente ajuda. Mas isso, sozinho, não é suficiente. Uma pessoa pode saber exatamente que o rotativo do cartão cobra juros altíssimos e, ainda assim, usá-lo. Pode entender que parcelar várias compras ao mesmo tempo é perigoso e, mesmo assim, fazer isso. Não necessariamente porque seja irresponsável, mas porque, em um contexto de escassez, a necessidade imediata e o desgaste emocional podem falar mais alto do que o conhecimento.

Por isso, políticas públicas e programas de educação financeira precisam ir além da simples transmissão de informação. É preciso ajudar as pessoas a lidar com impulsividade, ansiedade e pressão de curto prazo. Também é importante criar mecanismos que facilitem decisões melhores, sobretudo nos momentos de maior vulnerabilidade. Algumas medidas podem fazer diferença: facilitar o acesso a orientação financeira, estimular mecanismos automáticos de poupança, oferecer crédito mais transparente e com juros menores, criar alertas para evitar o acúmulo de parcelas e incentivar formas de planejamento simples e acessíveis. Bancos e empresas também podem contribuir, oferecendo produtos que ajudem o consumidor a recuperar controle e previsibilidade, em vez de apenas ampliar sua capacidade de consumo imediato.

No fundo, a escassez financeira não é apenas falta de dinheiro. É também falta de espaço mental para pensar com calma. E, quando isso acontece, a dívida pode parecer uma saída fácil justamente no momento em que ela se torna mais perigosa.

Mateus Canniatti Ponchio é professor e chefe do Departamento de Tecnologia e Ciência de Dados da FGV EAESP, com pesquisas nas áreas de comportamento do consumidor, endividamento e bem-estar financeiro. Esse conteúdo é parte integrante da edição 352 de AMANHÃ. Acesse a publicação completa gratuitamente.

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Terça, 30 Junho 2026

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