O ar que me falta

Três razões tornaram a leitura do livro de Luiz Schwarcz uma experiência fulminante
Tanto nas três gerações de que Luiz é o elo central, quanto em inúmeras dinâmicas familiares – de judeus, sírio-libaneses, armênios, japoneses e nordestinos –, a dor vivifica

De Paris (França)

À medida que minha temporada de asilo sanitário chega ao fim, depois que tomei a segunda dose da vacina Pfizer e depois que cumpri o primeiro ano ininterrupto em Paris, eis que o Brasil se aproxima velozmente no horizonte, como aquela sonda do solo marciano. Nesses últimos dias de fevereiro, é como se os referenciais despertassem de uma longa hibernação e, de novo, se tornassem tangíveis e concretos. Mais do que pontos de ancoragem, São Paulo e o Brasil assomam como o palco inelutável da refundação da vida tal como ela era até dezembro de 2019, quando o chão começou a nos faltar.

Nessa lenta entrada na atmosfera, a escassas duas semanas de chegar, tenho lido o que posso para reatar com o mundo de ontem, a despeito de uma tremenda dificuldade de cognição. Como a literatura é minha trilha natural de conectividade, os livros têm me ajudado a ter uma ideia não somente do país que vou encontrar, mas também das pautas que permearam o coração e a mente das pessoas durante a pandemia. Foi nesse contexto que tive hoje uma grata surpresa ao ler "O ar que me falta", de Luiz Schwarcz. Para mim, três razões tornaram a leitura do livro uma experiência fulminante.

Antes de me referir a elas, porém, vale dizer que Luiz Schwarcz é mais conhecido como o fundador da Companhia das Letras, um dos mais exitosos empreendimentos editoriais do país no século passado. A caminho dos 65 anos, lhe pareceu chegada a hora de fazer um balanço da vida e enfocar um dos aspectos cardeais do que foi a sua: a depressão. Pedra angular de uma inquietação que o forçou a uma reinvenção sistemática de si mesmo, as angústias de Luiz estão ancoradas mais atrás, provavelmente com a chegada do torcionário Eichmann a Budapeste.

E é aqui que nos aproximamos das fortes razões a que aludi. A primeira delas é que o Holocausto húngaro aparece como o estuário natural de suas angústias. A culpa do pai em ter sobrevivido ao avô que morreu no campo de Bergen-Belsen não se esgota com o fato em si. Como é comum na crônica do extermínio nazista, os que sobreviveram se sentirão para sempre maculados. No caso da Hungria, as razões se agravam. Fortemente ancorados ao país, os judeus húngaros foram pegos no contrapé quando o pior parecia ter ficado para trás. Horthy e a Cruz Flechada foram uma combinação solerte, quando Auschwitz dava sinais de inflexão.

Nesse contexto, quem lê Imre Kertész e seu desassossego ao voltar a Budapeste, onde já era dado por morto, entenderá bem esse sentimento. Ora, no período em que Luiz terminava de escrever seu livro, eu dava um ponto final a uma saga de judeus húngaros que começa na mesma época. E que, a exemplo do que aconteceu à sua família, desaguou na São Paulo dos anos 1950. A desventura de Szymon Neuman e de seus descendentes – na saga que acaba com a eclosão do coronavírus – navega pelos escolhos da depressão transgeracional, agravada por uma questão que não pode calar: temos ou não o direito de ser felizes?

Ora, o universalismo dos dilemas de Luiz Schwarcz ganhou comovente tangibilidade quando vi que seus dramas são os do primogênito de Szymon, os do indômito Boris, que se torna um bem sucedido homem de negócios, a despeito de tudo: de ter nascido no dia do suicídio de Vargas, de ter se iniciado sexualmente com uma prostituta na rua da Palma de forma um pouco desastrada, de ter se sentido na corda bamba entre o amor a Israel e a independência de espírito. Em "O ar que me falta" o drama perpassa três gerações. A síntese que faz Luiz da vida judaica da classe média alta dos anos 1970-1990 é de fina verossimilhança.

A identidade entre os personagens transparece também num misticismo difuso, atestado pela tomada de um morro no Recife no dia do estouro da barragem de Tapacurá, quando Boris concita populares a uma reza em hebraico, o que levanta suspeitas nos estamentos militares que então mandavam no Brasil. Se o problema de Luiz era a depressão, afinal sanada, a mácula que acompanhou Boris Neuman foi a da esquizofrenia. Em ambos os casos, os protagonistas acham seus caminhos, mas nada será nunca totalmente trivial. A começar pelos bastidores dos casamentos, uma espécie de quebra-mar da beira do Danúbio - onde tudo começa.

O segundo ponto é que, sem saber desde quando Luiz acalentava seu projeto, há de se crer que a eclosão da pandemia deva tê-lo levado a refinar esse olhar sobre si próprio. Centro nevrálgico de um universo de intelectuais onde pontua alto a esposa, a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, há também de se crer que um dia tenhamos um livro dela própria sobre essa experiência pungente, em que uma visão feminina, talvez até mais desafiadora, vá além do que aponta a curiosidade geral pelos gossips e desnude os bastidores de um casal onde o intelecto resplandece – como é o caso de Paul Auster e Siri Hustvedt. Sim, a pandemia nos fez loquazes, fatalistas e destemidos. Tudo é nada diante de uma intubação.

O terceiro e último ponto do que poderia ser um ensaio comme il faut, para o qual já me falta tempo, é que tanto aqui na França quanto no Brasil, há uma efervescência de um memorialismo que, para além das reminiscências, descortina o abismo colossal dos não-ditos, dos sofrimentos calados, do violento embate de gerações que permeou um pacto pela felicidade entre os que nasciam há um século ou pouco menos, num mundo que se dissolveria em escombros, e nós, os filhos das Copas do Mundo de 1958 e 1962, que herdamos um Brasil bipolar. Este país é o personagem silencioso de todos esses dramas.

Tanto nas três gerações de que Luiz é o elo central, quanto em inúmeras dinâmicas familiares urbanas – de judeus, sírio-libaneses, armênios, japoneses e nordestinos –, a dor vivifica. Mas, aos 60 anos, perguntamos: por que será que valeu a pena? Eis um livro trepidante, certamente penoso, e que, felizmente, talvez não galvanize unanimidades no meio literário. É disso que se precisa num momento de refundação de valores, de oxigenação dos porões, de revitalização de um legado esquecido. Com o lançamento da biografia de Paulo Rónai ano passado, se abre uma janela para conversar sobre a Mitteleuropa no Brasil. Imagine-se o que poderá vir. 

Veja mais notícias sobre BrasilMemória.

Veja também:

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Quarta, 26 Janeiro 2022

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://amanha.com.br/