Fernando Dourado leva "Mazal Tov" para o palco

Colunista de AMANHÃ é autor do texto dramatúrgico adaptado que estreará no Teatro Moise Safra a partir de 4 de agosto
Elenco da peça "Mazal Tov": um conflito de apelo universal sob os holofotes do imponente Teatro Moise Safra

Faltando duas semanas para a estreia da peça "Mazal Tov" em São Paulo, AMANHÃ conversou com o colunista Fernando Dourado Filho sobre este que é o seu desafio mais recente. Como muitos leitores do Blog Ao Redor do Mundo puderam acompanhar à época, tudo iniciou com a pandemia. Fernando leu "Mazal Tov", da belga JS Margot, em Paris, onde ficou mais de um ano (confira aqui a primeira crônica de uma série escrita pelo colunista de AMANHÃ durante sua estadia na Europa). Ele gostou da história cujo ponto alto consistia nos conflitos entre uma professora particular que se enamora da cultura judaica dos seus pequenos alunos, mas que, por outro lado, tem de lidar com os ciúmes do companheiro, um refugiado político iraniano, muçulmano veemente, embora não praticante.

"Vi ali um conflito de apelo universal, uma história bem contada. Traduzi o livro para o português e ele logo se tornou um best seller no Brasil. Então propus à autora fazer uma adaptação para o teatro. Com a permissão dela, trabalhei detidamente no texto durante meses para fazer os recortes adequados. Quando a coisa ficou séria, o dramaturgo Dan Rosseto veio dar o tempero do teatro. Dan é também o diretor da montagem. O resultado é simplesmente mágico", rememora. De índole arrebatada, entusiasta do que faz, Fernando afirma que, por enquanto, o foco é fazer dois meses de temporada em São Paulo, entre terças e quintas, nos meses de agosto e setembro, no Teatro Moise Safra. Depois, quem sabe, viajará com a peça para outras capitais brasileiras, incluindo Curitiba e Porto Alegre. Autor dos livros "O Halo Âmbar" e "A Viagem Imóvel", ambos publicados pela editora AzuCo, foi para falar sobre a montagem teatral que ele recebeu AMANHÃ para a entrevista que segue.

Como foi transformar um livro traduzido em mais de 15 línguas numa peça de teatro?
Fácil e difícil. Fácil porque eu conhecia muito a gordura dos personagens. O contexto cultural da época, o Judaísmo, as idiossincrasias mais marcantes do casal Schneider, dos filhos Jacó e Elzira e, em especial, do casal formado por Margot e Nima. Logo, tinha muitos elementos. Foi difícil porque eram inúmeras as situações do livro. Quais delas priorizar? E como manter no palco o vigor do livro? Apesar de premiadíssimo pelas possibilidades que abre ao diálogo entre culturas antagônicas, a montagem pedia vigor. Não se trata de romantismo açucarado, mas de embate, humor e ternura. Tudo muito alinhado ao que se vê no noticiário atual.

A propósito, vocês não temeram em momento algum não conseguir levar a peça ao palco em função dos problemas em Gaza depois do 7 de outubro?
Sei que não teremos vida fácil. Já colhemos reações exaltadas contra a peça. Como vocês podem retratar um lar judaico feliz quando milhares de palestinos perderam suas casas, quando não suas vidas? Pois eis uma bela oportunidade de ver como essa conexão intercultural se opera na prática. O Sr. Schneider, o lapidador de diamantes de Antuérpia, pai das crianças, acolhe o muçulmano Nima para o Shabat como se ele fosse um príncipe. Não se pode forçar comparações obtusas de valores universais — como os expressados pelas religiões monoteístas — com o quadro geopolítico do Oriente Médio. A cultura sempre engolirá a política.

Como isso é possível na cabeça do espectador?
Digamos que essa seja a força da arte, senão o seu papel. É sair do terreno da política miúda e alçar voos para altitudes mais arejadas. Parece apenas poético, mas não é. Mais de um astronauta já disse que no primeiro dia de voo em órbita do planeta, cada um via o seu país. Depois, os recortes do continente onde ele se situava. No final da missão, todos só conseguiam enxergar o planeta — a Terra, nosso lar, maior do que todos nós. Assim é com a peça. Logo se diluem os valores religiosos individuais das partes envolvidas e prevalece uma força maior — sem perdermos os temperos de cada uma das culturas, especialmente da judaica.

Você parece ter grande familiaridade com Israel e o Judaísmo. De onde isso vem? Você é judeu?
É o que todo mundo me pergunta. Não adianta eu dizer que não sou. Ninguém acredita. A verdade é que tenho mais de 50 anos de contato com Israel. Trabalhei como voluntário de kibbutz aos 18 anos por vários meses. Voltei ao país muitas vezes. Esse acaso que me fez chegar a Israel na semana do resgate dos reféns de Entebbe criou um vínculo emocional forte, que se desdobrou nas minhas relações familiares. O que as pessoas sabem menos é que tive negócios em vários países árabes e muçulmanos, que também conheci desde cedo. Estou em casa entre o Marrocos e a Indonésia, se me permite algum exagero.

E o elenco? Houve dificuldade de recrutar os atores que vocês tinham em mente?
Sim e não. Sozinhos não faríamos nada. Sem o olho apurado de Dan e de Fábio Câmara, nosso produtor, não teríamos chegado a um elenco tão primoroso. Eu já era amigo da Dinah Feldman, que faz uma Margot estupenda. No processo, conheci a Giovanna Yedid, que encarna uma Madame Schneider completa. Nos ensaios, chorei com o desempenho de Nima, interpretado por João Baldasserini. Otávio Martins faz um Aron Schneider comovente. Tudo na interpretação dele é primoroso. O sotaque, os meneios, a doçura, a força de um "Mentsch" da melhor tradição judaica. Thay Bergamin, que eu não conhecia, faz Elzira. E o adolescente Jacó é Gabriel Brener, que também é estupendo. Não há papéis fáceis.

Em algum momento vocês pensaram em fazer um musical?
Talvez tenha passado pela minha cabeça. Mas a editora Karen Szwarc nos convenceu de que era uma peça de texto. Por outro lado, como não há vida judaica sem música, as passagens musicais estão lindas. Ouvi-as já algumas vezes. Levei o amigo István Wessel para um ensaio completo, ele que é um apoiador do projeto. Por duas vezes, ele enxugou as lágrimas. "Sabe, Fernando, nós judeus somos meio chorões", me disse na ocasião. Foi um valioso termômetro de acerto. Temos muitas passagens musicais e em algumas delas vamos contar com o entusiasmo da plateia que cantará conosco. O Teatro Moise Safra é esplêndido sob todos os aspectos.

Vocês pretendem viajar com a peça pelo Brasil, inclusive apresentando aqui no Sul?
Por mim, viajaríamos sem medo pelo mundo. Queríamos fazer Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e Recife. Mas tudo vai depender da bilheteria e das amarrações da produção, que é muito competente. De nossa parte jogamos tudo no projeto. Minha mãe morreu há dois anos. Dia desses, vi que tinha ficado com um pequeno imóvel no interior de Pernambuco. Coloquei a placa de "vende-se' e apurei um dinheirinho pequeno, mas que ajudou a colocar o projeto de pé. Teatro é renúncia. Precisaremos de uma temporada arrebatadora em São Paulo para viajar. Talvez recupere uns tijolos da casinha que vendi. Aos 68 anos, é bom sentir como as energias se renovam quando você se depara com um projeto em que acredita. Recomendo a todos que leiam o livro "Mazal Tov", mesmo aqueles que não estão no circuito da peça. É deleite puro.

A autora JS Margot chegou a opinar sobre algum detalhe envolvendo a peça?
Ela nos preveniu que teríamos muito mais dificuldades do que imaginávamos. Nos deu crédito e encorajamento para seguir adiante. Queremos que ela venha ao Brasil para assistir a uma das apresentações. Se para mim, como autor do texto dramatúrgico adaptado, a realização é imensa, imagine para ela que viveu na pele a própria história que, quando contou, encantou o mundo.

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Quarta, 22 Julho 2026

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