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Adeus, emprego

Novos paradigmas farão com que ocupações tomem o lugar dos postos de trabalho, afirmam economistas em debate promovido pelo Corecon-RS
24134511302290 O emprego será substituído pela ocupação, ou seja, o maior trânsito ao longo de diferentes postos de trabalho durante a carreira profissional

O IBGE adotou em 2012 o termo ocupação em vez de emprego para avaliar a situação dos trabalhadores no país. Os economistas Hélio Zylberstajn (USP) e José Márcio Camargo (PUC-RJ) discutiram o futuro do mercado de trabalho, com mediação de Giácomo Balbinotto Neto (UFRGS), em uma live do Corecon-RS acompanhada pelo Portal AMANHÃ (leia a primeira parte do debate aqui). 

A noção de ocupação como substituição ao emprego, já presente nas pesquisas nacionais, parece ser uma tendência para o futuro do trabalho, de acordo com Zylberstajn. Empregos de longo prazo estão associados, na visão do especialista, diretamente com empresas do passado. "Não sei se vamos ter emprego por muito tempo. Vamos ter trabalho e vamos ter gente ocupada, mas não empregada", ressalta o economista. Até recentemente, um funcionário tinha de receber conhecimentos próprios de uma empresa para tornar-se produtivo e, assim, permanecer muito tempo em uma função. Para Zylberstajn, essa especificidade aprisionava o trabalhador, já que o conhecimento, por ser tão específico, não tinha mercado. 

"Me atrevo a dizer que isso é passado. Hoje, as empresas são iguais, pois o conhecimento geral é que predomina. É por isso que as relações de trabalho são muito mais tênues e as pessoas ficam muito menos em um emprego", destaca o especialista.

Outra mudança na lógica de funcionamento das corporações é que hoje é possível coordenar horizontalmenteCom o avanço da tecnologia e decorrentes transformações em sistemas de gestão, a hierarquia nem sempre é vital - algo que rompe a dicotomia entre conhecimento geral e específico. "Essa dicotomia é uma simplificação, pois todo conhecimento tem uma parte especifica e uma geral. Mas a importância da especificidade está diminuindo. E isso nasceu com a tecnologia", revela o professor da USP. Essas mudanças fazem com que o emprego, como relação de longo prazo, seja substituído pela ocupação, ou seja, o maior trânsito ao longo de diferentes postos de trabalho durante a carreira profissional.Para Zylberstajn, uma das grandes questões a ser debatida é a possibilidade da precarização do trabalho. "Todo estado de bem-estar social foi construído por meio do emprego, o acesso aos direitos era por meio desse vinculo. Nesse aspecto, no Brasil, temos algumas questões adiantadas. Por exemplo, o SUS é universal e não precisa ter carteira assinada para usar seus serviços de saúde. Esse é o conceito", contextualiza. Para ele, será preciso construir um novo conjunto de regras e de direitos dos trabalhadores. O economista acredita que é necessário proteger o trabalhador na transição ao longo do mercado de trabalho, por meio de treinamento, seguro-desemprego e ajuda na procura de uma nova ocupação. "É uma proteção no mercado de trabalho e não uma proteção no emprego. Esse é o novo modelo e isso naturalmente tem implicações para Previdência e para todas as outras politicas sociais", crê.

Qualificação profissional

No debate, José Márcio Camargo chamou atenção para a importância da mão de obra qualificada, com uma formação sólida, na futura retomada da economia. Ele salientou a relevância de instituições como Senai, Sesc e Sesi que preparam jovens para o mercado de trabalho. Zylberstajn abordou a urgência da reformulação do ensino médio. "Ele é, por definição, acadêmico. Prepara jovem para o vestibular. Precisamos mudar isso. Ensino profissional tem de ser uma opção, em associação com as empresas," propõe. Segundo ele, o ensino no Brasil limita-se ao conteúdo formal. Em outros países  é possível optar no Ensino Médio entre vários enfoques para a universidade, por um ensino de viés mais prático ou ainda por aprender uma profissão. E tal formação pode ser feita em parceria com empresas, que se comprometam a ensinar, avaliar e reconhecer o aprendizado do jovem em certa ocupação. "Essa chacoalhada no sistema educacional a gente precisaria agora. A empresa e a escola formam o recurso humano vitorioso. Na Alemanha e na Coreia do Sul é assim," exemplifica Zylberstajn. Para o professor, isso não significa voltar o ensino do jovem exclusivamente para o mercado de trabalho, pelo contrário; esse sistema pode ser uma ponte para a faculdade. "Na Alemanha, o ensino profissional é de tão boa qualidade, que esse jovem não precisa parar no [ensino] profissional. Ele pode ir em frente."

Os economistas também abordaram possíveis mudanças institucionais, como a reforma sindical. "Não podemos radicalizar e afirmar que não precisamos dos sindicatos. Empresa e trabalhador se entendendo sozinhos pode funcionar agora na pandemia, mas é momento atípico em que há grande aporte governamental. Em épocas normais, precisamos de uma voz coletiva que defenda os trabalhadores. Mas não essa voz que temos hoje, pois precisamos de sindicatos mais representativos", defendeu Zylberstajn. Na visão dele, uma reforma sindical bem executada, automaticamente reduziria a carga sobre a Justiça do Trabalho.

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Terça, 11 Agosto 2020

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