Dados, para que te quero?

Não adianta tê-los se a decisão obedece ao feeling
Se o Grêmio quiser realmente mudar seu processo de contratações em 2021, tem de dar ouvidos a Andrew McAfee, professor do MIT, para quem “poucas coisas são mais poderosas para transformar uma cultura do que ver um executivo mudar de ideia quando os dados contradizem sua intuição”

"A cultura organizacional devora a estratégia no café da manhã", costumava dizer Peter Drucker (1909-2005). O velho pai do management sabia do que estava falando: planos, ideias, projetos e intenções nada mais são do que planos, ideias, projetos e intenções se não estiverem firmemente apoiados na forma de pensar e fazer as coisas que as organizações chamam de cultura.

Pois a frase parece valer perfeitamente para aquelas instituições que, influenciadas pelo esplendor da tecnologia e pelos modismos gerenciais, têm aderido à chamada "era dos dados", aquela na qual as decisões gerenciais baseiam-se mais em evidências empíricas do que em palpites. Uma coisa é coletar, analisar e disponibilizar números, estatísticas, correlações, o que for. Outra é levá-los em consideração na hora de bater o martelo sobre determinado assunto.

Lamentavelmente, um mau exemplo da "lei de Drucker" parece vir do Grêmio. Tido e havido como dono de um dos melhores sistemas de análise de dados de jogadores do país, o clube gaúcho teria, em tese, condições de tomar boas decisões quanto a contratação de reforços, evitando comprar gato por lebre. Não fosse por um detalhe: seu processo decisório.

Segundo ouvi na imprensa esportiva local, o treinador do Grêmio, Renato Portaluppi, sistematicamente tem sido apresentado a números nada animadores sobre a performance de certos jogadores indicados por ele. E, mesmo assim, insistido em suas contratações, apostando na sua proverbial capacidade de recuperar atletas em baixa.

Dá para imaginar quão injustiçado deve se sentir o setor responsável pelas estatísticas no clube: primeiro, por não ter seu trabalho levado em conta. E, segundo, por geralmente estar coberto de razão, como mostram as repetidas contratações infelizes dos últimos anos.

Nada muito diferente do que volta e meia ocorre em empresas de diversos ramos. O setor de analytics, inteligência de mercado ou seja lá o nome que receba, existe para fazer figuração, sugerindo a existência de uma companhia moderna e ancorada em evidências – quando a cultura, na verdade, nunca passou pela transformação devida, geralmente por falta de convicção de seus mais altos dirigentes.

Alguém poderia contrapor dizendo que números jamais serão capazes de explicar completamente o desempenho e o potencial de um atleta, ainda mais de futebol, um esporte marcado por certa imprevisibilidade. E que, por isso, devem fazer parte do mix de decisão, e não ser seu componente definidor. Não discordo. Agora, quando dados e feeling divergem profunda e repetidamente, o critério de desempate tem de pender para o primeiro. Do contrário, não faz sentido mobilizar uma estrutura inteira de profissionais e tecnologia se a palavra final caberá sempre à intuição do profissional de turno.

Se o Grêmio quiser realmente mudar seu processo de contratações em 2021, tem de dar ouvidos a Andrew McAfee, professor do MIT, para quem "poucas coisas são mais poderosas para transformar uma cultura do que ver um executivo mudar de ideia quando os dados contradizem sua intuição". Principalmente se o executivo em questão for o maior ídolo da história do clube.

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Quinta, 21 Outubro 2021

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