Assim é se lhe parece

Carros, roupas e restaurantes assemelham-se em todo o mundo
O CEO da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, não resistiu a dar uma alfinetada na emergente indústria automobilística chinesa depois de visitar o Salão de Pequim. Segundo ele, os modelos orientais são todos muito parecidos e repletos de inspirações em produtos europeus consagrados. Uma crítica que curiosamente encontra eco no vice-presidente de uma... montadora chinesa. Segundo o responsável pelo design da Geely, as fabricantes de seu país foram "infectadas" por uma mesma estética, tornando difícil para os consumidores distinguir as marcas pela aparência. Para quem volta e meia é passageiro de carros chineses de aplicativo, como eu, os comentários soam procedentes. Não fosse por um detalhe: os modelos ocidentais há muito tempo vêm se parecendo bastante uns com os outros.

E basta pegar as fotos da frota brasileira dos anos 1980 e 1990 e compará-las com a atual para ver que, se houvesse um radar de semelhança, ele estaria apitando sem parar. E há uma combinação de motivos para isso.

Primeiro, a globalização da produção e dos mercados. Hoje, é mais comum os modelos fabricados em um país abastecerem nações vizinhas ou longínquas e, para isso, é necessário um denominador comum em matéria de linguagem visual.

O segundo é a disseminação de tecnologias, como softwares de desenho e túneis de vento. "Os modelos eram colocados em túnel de vento e os dados (...) eram reunidos em computadores que, por sua vez, desenhavam os carros. Partindo de resultados semelhantes, todos ficavam parecidos", lembra o joalheiro Antonio Bernardo, um cultor da originalidade.

E há ainda legislações de segurança mais estritas, consolidação das indústrias (reunindo várias marcas em um grupo só) e menos disposição em arriscar. No Brasil, um dos marcos dessa convergência foram dois modelos produzidos por VW e Ford em uma parceria chamada Autolatina, o Apollo e o Verona.

Uma realidade que não é exclusiva da indústria automobilística. Esta apenas antecipou-se à da moda, também adepta da homogeneização universal. E, ambas, aos estabelecimentos gastronômicos. Um colunista observou, depois de viagem recente, que cafés, bares e restaurantes "em Madri, Paris, Belgrado, Lisboa ou Berlim (...) eram muito parecidos". Culpa do turismo de massa, da internet e, claro, de uma compreensível tendência de copiar o que funciona: "o café que você toma, a louça em que ele é servido, a música que toca no ambiente, o corte de cabelo de quem te atende e até as tatuagens". Mais do que isso: os pratos passaram a seguir um mesmo padrão. Ingredientes, técnicas, receitas e apresentações estão iguais.

Vinte e um anos atrás, Thomas Friedman anunciava que "o mundo é plano". Referia-se à queda de barreiras territoriais e comunicacionais entre os países. Sua tese foi muito criticada, mas um de seus efeitos hoje é difícil de ignorar: nunca consumimos produtos, ambientes e experiências tão parecidos entre si. E dá ensejo a uma questão: mais do que plano, o mundo não teria ficado chato, também?

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Terça, 14 Julho 2026

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