Olha o que ele não fez

Morre Oscar Schmidt, o jogador de basquete que negou a NBA
Oscar não se tornou treinador nem manager, e sim comentarista de TV e palestrante requisitado. Logo ele que, certa vez, disse frustrar-se com o fato de não saber fazer outra coisa a não ser jogar basquete

De todas as façanhas da carreira de Oscar Schmidt, ex-jogador de basquete morto na última sexta-feira (17), aos 68 anos, talvez nenhuma tenha sido maior do que a recusa a um convite para jogar na NBA dos anos 1980 – pois a decisão implicava, por tabela, renunciar à Seleção Brasileira. Donos da única liga profissional do esporte na época, os Estados Unidos vetavam a participação de jogadores em torneio amadores, como os campeonatos mundiais e olímpicos, pela simples razão de que eles mesmos não os disputavam com seus jogadores de elite – até a regra ser convenientemente alterada para a consagração do Dream Team, em 1992.

Existem dois esportes, sabe-se; o basquete e o basquete norte-americano. O segundo é muito diferente (e superior) em matéria de intensidade, técnica e beleza plástica. Abrir mão de integrá-lo em nome de um ideal soa estranho e démodé. Tanto que Tiago Splitter e Anderson Varejão fizeram o movimento oposto, de dispensar a Seleção para priorizar seus clubes norte-americanos, e ninguém nunca os acusou de nada, a não ser de pragmatismo realista.

Mas, naqueles tempos, talvez tenha parecido menos um ato heroico do que um sacrifício justificável. Havia uma fantasia de que equipes esportivas nacionais constituíam uma embaixada ambulante do país, e que se juntar a elas conferia certa dose de orgulho e responsabilidade. Mesmo que tudo não passasse de um jogo, parecia que era mais. E Oscar fazia parecer que era, mesmo. O choro incontrolado nos instantes finais da vitória no Pan-Americano de Indianápolis, em 1987, foi a grande demonstração.

A recusa aos EUA não o impediu de cumprir uma trajetória de destaque internacional, tanto que reconhecida pelo hall da fama da modalidade, mas pode tê-lo custado alguns milhares ou milhões de dólares – e, quem sabe, a verdadeira notoriedade mundial, de que só Jordans, Johnsons e Birds desfrutaram. Mas ele nunca deu sinal de arrependimento.

Curiosamente, ao deixar a carreira, Oscar não se tornou treinador nem manager, e sim comentarista de TV e palestrante requisitado. Logo ele que, certa vez, disse frustrar-se com o fato de não saber fazer outra coisa a não ser jogar basquete. Aprendeu rápido e bem. Carismático e comunicativo, conservou intocado o prestígio dos tempos de atleta.

Do qual se valeu para deixar a lição de uma outra rejeição – desta vez ao apelido "Mão Santa". Oscar o repelia por conservar na memória as horas e horas que ficava depois dos treinamentos arremessando da linha de três pontos, repetição incessante que acabaria por torná-lo um expert nesses lances. "Mão Santa, não", corrigia. "Mão treinada".

E muito.

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Segunda, 20 Abril 2026

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