Impérios e imperativos
Imagine a situação. Você tem a possibilidade de se apropriar facilmente de um valioso patrimônio alheio, sem maiores custos ou resistências, de modo a garantir mais riqueza aos seus e ainda dar uma demonstração de força a todos os rivais que o têm desafiado, sem risco de sanção significativa — exceto a antipatia da comunidade internacional. Você aproveita a oportunidade?
Bem, Donald Trump aproveitou: ocupou a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro e transferiu o setor petrolífero local para os norte-americanos. Da maneira como está descrito no primeiro parágrafo, exercer o poder geopolítico parece inevitável. Cabe-nos perguntar se, nos negócios, a coisa funciona de maneira parecida.
Guardadas as diferenças, a resposta é sim. E o motivo remete à natureza do poder, que nunca é definitivo. Por isso, para ser conservado, precisa ser exercido, até como medida preventiva.
Tomemos o caso do Walmart, maior supermercadista do mundo, conhecido por impor severas condições de negociação a seus fornecedores. Dado o gigantismo da rede, em algum momento pode ter ocorrido a um observador externo que, se a companhia aliviasse a pressão sobre a cadeia de suprimentos, abandonando sua obsessão por corte de custos, tornaria parceiros de negócios mais saudáveis economicamente (e seus executivos, menos malvistos por seus homólogos). Talvez. Mas o surgimento da Amazon, com uma política de relacionamento com fornecedores bastante semelhante e um sistema de distribuição que o Walmart não dominava, pôs seu reinado em xeque. Relaxasse no exercício de seu poder de mercado ao longo dos últimos 30 ou 40 anos, teria o Walmart condições de, hoje, fazer frente ao negócio de Jeff Bezos?
Situação parecida aplica-se ao Grupo Globo, desde meados da década de 1970 empenhado em derrubar seus concorrentes em mídia impressa e eletrônica na base da cooptação (com as bonificações às agências) e da intimidação (a anunciantes que optassem pelo JB). Graças a essas e outras decisões, sobreviveu à extinção dos jornais fluminenses, conservou o share na verba publicitária de TV aberta e conseguiu emergir, da revolução digital, como o único grupo de mídia nacional capaz de fazer frente às plataformas de streaming estrangeiras no campo audiovisual.
Na era da informática e da internet, o poder tem decorrido de efeitos de rede, principalmente. Assim, uma vez o Windows se tornou o sistema operacional dominante, franqueou à Microsoft a possibilidade de cobrar caro pelos aplicativos compatíveis com ele, além de tentar tornar o seu navegador de internet o padrão do mercado. Google e Meta definem à revelia de usuários os modelos de visualização e remuneração de anúncios, vídeos, postagens, reels e tudo o mais, determinando os rumos da economia digital, em um puro exercício do poder de mercado.
Daí que a melhor lição para quem, como a maior parte de nós, depende ou convive com companhias superpoderosas no dia a dia, venha de um ilustre historiador gaúcho, Décio Freitas (1922-2004): "superpotências não têm imperativos éticos, têm imperativos estratégicos".
Superempresas também.
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