Todos somos um

Para o mal e para o bem
Milhares de vidas foram salvas pelo trabalho conjunto de pessoas comuns, estimuladas umas pelos exemplos das outras e pela crença de que, imergindo no coletivo, teriam as forças que, isoladas, lhes faltariam

O psicanalista Contardo Calligaris (1948-2021) costumava declarar profunda antipatia pelo comportamento dos grupos, fossem eles partidos políticos, torcidas organizadas ou qualquer ajuntamento de pessoas. Neles, segundo o italiano, o indivíduo renunciava à sua própria consciência para seguir o coletivo, autorizando-se violências e boçalidades que, sozinho, jamais cogitaria. Calligaris tinha em mente o nazismo alemão e o fascismo italiano, as pancadarias em estádios de futebol e crueldades episódicas, como o incêndio de um indígena sem-teto em 1997), como exemplos dessas verdadeiras patologias grupais. Difícil não concordar com ele, a partir dos casos que enumerava, mas difícil também não pensar o oposto: se é o grupo que legitima e viabiliza nossos piores sentimentos e ações, é ele, também, que nos impulsiona em direção aos melhores. Somente assim se explica a mobilização em prol dos desabrigados das chuvas que assolam o Rio Grande do Sul desde os últimos dias de abril.

No princípio, a colaboração restrita aos conhecidos – parentes, amigos, vizinhos – encontrava respaldo no instinto de sobrevivência e proteção aos seus. Com o passar dos dias e a extensão dos desastres, ela ampliou-se para categorias mais abstratas e, portanto, difíceis de justificar pela mera programação biológica de preservar genes e afetos: gaúchos, brasileiros, humanos, seres vivos. A mobilização espalhou-se pelo Brasil, chegou ao exterior e não deixou para trás nem animais domésticos. Muito desse envolvimento é gerado pelo efeito mídia, a ampla cobertura que a imprensa nacional e internacional tem feito da catástrofe. Tende, sim, a arrefecer à medida que o sentido de urgência sucumbir ao cansaço, físico e mental, de quem ajuda ou simplesmente acompanha pela TV. Comoções vêm e passam, e não é de duvidar que daqui a alguns meses deem lugar a disputas políticas e aproveitadores. O que não anulará o fato objetivo de que milhares de vidas foram salvas pelo trabalho conjunto de pessoas comuns, estimuladas umas pelos exemplos das outras e pela crença de que, imergindo no coletivo, teriam as forças que, isoladas, lhes faltariam.

O sociólogo alemão Albrecht Sonntag afirma que "grandes nações, para existirem, têm necessidade de se confortar sobre si mesmas de tempos em tempos por pulsões emocionais fortes. Temos a necessidade de dizer a nós mesmos que somos uma comunidade, que tem problemas, mas também vínculos" (Estadão, 28/06/14). Ele se referia a eventos esportivos como Copa do Mundo e Olimpíada, mas é possível transferir essa análise para os grandes desastres naturais, como os que testemunhamos agora. Inclusive na denominação que Sonntag atribui ao fenômeno: metáfora da família.

Taí uma boa imagem para descrever a sensação dessas duas últimas semanas no Rio Grande do Sul.

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Sexta, 14 Junho 2024

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