O viajante transformado

Há dois anos eu não viajo para fora do Brasil
Tenho saudades do vinho e da prosa, da chegada da primavera e de como me senti peregrinando pelos comércios do VI ème parisiense

Há dois anos eu não viajo para fora do Brasil. Isso não acontecia desde os meus 17. Para quem tem 65, eis um marco significativo. Para agravar o quadro inusitado, eu mal tenho saído de São Paulo, nem sequer para visitar Pernambuco, meu estado natal onde mora minha mãe, bem entrada nos 90 anos. Não é de espantar que muita gente me aborde como se eu tivesse perdido a identidade. É como um atleta que se aposentou súbita e inexplicavelmente, como se um castigo tivesse se abatido sobre ele. Quem nos contará as histórias de além mar, as fabulações fartas sobre pontos remotos do globo e sobre sua gente exótica? Será que o velho guerreiro vai se adaptar às rotinas comuns aos mortais e abdicar da adrenalina insana das noites mal dormidas? Quando lia que as pessoas se acomodavam depois de certa idade e que começavam a viajar "para dentro", essa singela verdade me parecia surreal. Na minha compreensão, tudo era pretexto para justificar a saúde declinante, as finanças claudicantes ou até mesmo o fato de que elas talvez não tivessem jamais sido verdadeiras viajantes, eram apenas turistas, preocupados em conhecer monumentos e não em se conhecer.

Eis que agora estou convencido de que todos os fatores acima podem mesmo se combinar. Mas também pode ser que o desejo de cruzar os ares decline naturalmente em favor de algum conforto doméstico e, sobretudo, do cabedal da memória que funciona como um reservatório onde resgatamos as emoções passadas. Ter viajado passa a ser mais importante do que viajar. Na pandemia, fiquei 400 dias e noites em Paris, dormindo na mesma cama. Foi ali que se fixou o precedente da vida fixa, sem avião. O que aconteceu com as recordações dessa época? Elas nutrem essa fase de introspecção. Tenho saudades do cavista que me separava as garrafas de Bourgogne Aligoté que pegava às sextas-feiras. Mais do que dele, tenho saudades do vinho e da prosa, da chegada da primavera da esperança, aquela de maio de 2020, e de como me senti peregrinando pelos comércios do VI ème parisiense. Sinto falta das quatro estações bem definidas, da paleta da ramagem do Jardin des Plantes. E tento imaginar o estado de saúde dos pedintes romenos que mendigavam ao lado de cães de aluguel.

Mas, quando voltar lá, talvez me dê conta de algo de que desconfio hoje: é mais gostoso sentir saudades do que reavivá-las como brasa de churrasco. Toda semana recebo pessoas que se preparam para viagens – mais esticadas ou mais curtas – e, com a mesma aplicação de sempre, eu preparo-as para as rodadas de negociação com as mais diversas culturas de trabalho. Mas, quando o workshop termina, é com alívio que volto para casa sem qualquer laivo de inveja daquela vida de embarques, carimbos, controles sanitários, hotéis e jantares. Pode ser que a boa forma esteja cedendo ao desgaste de material e que eu já não seja o devorador de milhas incansável que fui. O fato inelutável é que a idade tem, sim, seus encantos. A economia de recursos integra a máxima de Soyinka, Prêmio Nobel: o tigre não precisa proclamar a sua tigritude. O tigre ataca.

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Segunda, 22 Julho 2024

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