UEL lidera estudo sobre microplásticos na carne de porco

Primeira pesquisa do Brasil a investigar a presença e os impactos dessas partículas na cadeia da suinocultura intensiva, o projeto busca compreender os riscos para a saúde animal e humana
A doutoranda Gabriela Vitoretti Machado e a professora Karina Keller Marques da Costa Flaiban, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL), responsáveis pelo estudo inédito sobre a presença de microplásticos na suinocultura

Durante um ano, um brasileiro consome uma média de 20 quilos de carne de porco, sustentada por um rebanho de quase 5 milhões de suínos e movimentando mais de R$ 63 bilhões. E quando se pensa nos riscos associados a esse consumo, fala-se principalmente da gordura ou da carne mal passada, mas há outro vilão que é preciso levar em conta: os microplásticos (MPs). Com menos de cinco milímetros, eles são invisíveis a olho nu, criados pela fragmentação de objetos de plástico, roupas de material sintético ao serem lavadas, pelo desgaste de pneus ao dirigir ou pela degradação de sacolas, embalagens e garrafas. Essas partículas misturam-se à água ou à comida, que então acaba sendo ingerida por animais, entra na cadeia alimentar e, eventualmente, chega ao consumo humano.

O projeto de pesquisa "Microplásticos na suinocultura intensiva: implicações na saúde única", da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é o primeiro do Brasil a utilizar como seu foco principal a criação de porcos para estudar a presença e os efeitos desses polímeros no ambiente, no animal e no produto final. As responsáveis pela iniciativa são Gabriela Vitoretti Machado, estudante da pós-graduação e orientanda de doutorado, em conjunto com a professora Karina Keller Marques da Costa Flaiban, docente do departamento de medicina veterinária preventiva há quase duas décadas e homenageada com a Bolsa Produtividade do CNpQ (PQ-C).

Segundo a professora, serão coletadas amostras da água e da ração que os animais consomem, para compreender a origem e os tipos diferentes de MPs encontrados. Então, após o abate do porco, o processo será repetido com o seu sangue e tecido muscular, para verificar quanto das partículas são absorvidas. "A escolha da espécie suína também é pensando nas diversas semelhanças fisiológicas com os seres humanos. Ainda não se sabe qual a severidade do impacto na saúde dos microplásticos, mas com essa pesquisa nos aproximamos de uma resposta mais definitiva", explica.

Apesar da presença dessas partículas no meio ambiente ser conhecida desde 1970, a pesquisa sobre elas começou apenas após a virada do milênio, e até agora já foram encontrados microplásticos nos pontos mais altos e mais profundos do planeta, assim como no interior de todo tipo de organismos. Gabriela Vitoretti, idealizadora do projeto, afirma que a presença de MPs nos suínos está relacionada à inflamação sistêmica, queda na imunidade e estresse oxidativo, que diminui o seu desempenho e capacidade produtiva. "É preciso estabelecer uma cadeia de contaminação biológica: A água e a ração contaminam o animal, o animal que tem essas partículas fica com a sua saúde e produtividade afetadas, que passa para quem come aquela carne", acrescenta.

Além das duas pesquisadoras, o projeto também contará com o auxílio do professor Rafael Humberto de Carvalho, professor do Departamento de Zootecnia e coorientador, e outros sete estudantes de graduação e pós-graduação, integrantes da equipe de laboratório. Serão utilizados diversos dos equipamentos mais modernos do campus, como o Atellica Solutions, do laboratório do Departamento de Veterinária Preventiva, que é um analisador químico automático. Com ele, são avaliadas as partículas presentes no soro do sangue do porco, para verificar a presença ou não de microplásticos. O Espectrômetro Raman, presente na Central Multiusuário de Laboratórios de Pesquisa da UEL (CMLP/UEL), é responsável pela identificação dos MPs, diferenciando e classificando-os de acordo com as particularidades de cada molécula.

Em adição, a iniciativa também contará com auxílio de fora do Campus, por meio de uma parceria feita com o Akei Animal Research, uma empresa de pesquisa com suínos da cidade de Fartura, na divisa entre Paraná e São Paulo. A instituição disponibilizou alguns dos porcos de seu rebanho para serem utilizados para coleta de sangue e tecido muscular após o abate. Para os pesquisadores, a presença dos microplásticos e o seu impacto sobre todo o ecossistema terrestre é um fato impossível de ser negado, e o ambiente já contaminado continuará desta forma pelos próximos milhares de anos, e é possível apenas evitar piorar a situação. A melhora real só pode ocorrer com uma mudança generalizada sobre o entendimento da sociedade sobre o uso desses materiais para objetos descartáveis.

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Terça, 25 Agosto 2026

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