Tarifas americanas colocam a indústria do Sul sob pressão
Quase um mês depois da entrada em vigor das novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, a indústria do Sul ainda sente os efeitos da mudança no comércio com o mercado americano. A medida, do governo de Donald Trump elevou a cobrança total de tarifas para 37,5% em diversos itens. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a sobretaxa alcança US$ 12,4 bilhões em vendas brasileiras aos Estados Unidos, o equivalente a 29,4% de tudo o que o Brasil exporta para o mercado norte-americano. Desse total, 80,7% das exportações afetadas estão sujeitas à carga combinada de 37,5%, enquanto 13% enfrentam apenas a nova alíquota de 12,5%.
Na região Sul, o problema não está apenas no volume exportado, mas no tipo de produto embarcado. A pauta regional é fortemente concentrada em manufaturados de maior valor agregado, muitos deles fabricados sob especificações técnicas e desenvolvidos para atender cadeias produtivas já consolidadas nos Estados Unidos. Isso torna a substituição de mercado lenta, cara e, em alguns casos, pouco viável no curto prazo.
Embora o valor absoluto exportado por São Paulo siga maior, os estados do Sul são proporcionalmente os mais expostos. Em 2025, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul exportaram juntos US$ 4,3 bilhões para os Estados Unidos. Desse total, US$ 3,9 bilhões, ou 90,7%, estão enquadrados nos recortes tarifários analisados. Em São Paulo, essa participação é de 72%. Os dados da ApexBrasil mostram ainda que Santa Catarina tem 67,6% de suas exportações aos EUA afetadas; o Paraná, 57,5%; e o Rio Grande do Sul, 57,1%.
Santa Catarina é o estado mais exposto
O cenário imposto pela segunda onda do tarifaço dos Estados Unidos é grave para o Brasil e, especialmente, para o estado catarinense. Para Santa Catarina, a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros é um desafio ainda mais expressivo. Segundo a ApexBrasil, 67,6% das exportações catarinenses aos Estados Unidos foram atingidas, com impacto de US$ 994,2 milhões. A Fiesc alerta que apenas 5,2% das vendas ao mercado americano estão totalmente isentas de sobretaxas, o que ajuda a explicar a gravidade da situação no estado. A entidade também projeta reflexos semelhantes aos observados em 2025, quando as exportações catarinenses aos Estados Unidos caíram 38,2% e o estado deixou de gerar cerca de 7,6 mil empregos.
Para a Fiesc, a diferença de competitividade em relação a concorrentes internacionais continua praticamente a mesma, o que mantém o risco de perda de espaço comercial. As regiões Serrana, Oeste e Planalto Norte concentram os principais efeitos, justamente em áreas que já enfrentam dificuldades estruturais de desenvolvimento. Entre os produtos mais sensíveis está a madeira, especialmente portas e molduras, itens adaptados ao sistema de construção civil americano, o chamado wood frame. Segundo Ricardo de Souza, economista da Fiesc, esse tipo de produto não pode ser redirecionado com facilidade para outros mercados, porque exige adequações técnicas, certificações e novos canais de distribuição. "Adaptar esse produto para outros mercados exige tempo e investimento pesado", ressalta. Segundo ele, o impacto vai além da tarifa em si. Quando a diferença de preço para os concorrentes internacionais aumenta, o importador americano simplesmente busca outro fornecedor.
Como bem pontua Maria Teresa Bustamante, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesc, o trabalho de defesa é exaustivo. "Desde abril de 2025, existe um canal aberto com escritórios de lobby e advogados contratados pela CNI para acompanhar e discutir estratégias de atuação, estudando cenários e defendendo os interesses da indústria catarinense vinte e quatro horas por dia", destaca. Em termos logísticos e burocráticos, Santa Catarina conta com uma estrutura de comércio exterior eficiente e com alguns dos melhores portos do Brasil. Embora a logística deva ser aprimorada, esse não deve ser o principal problema enfrentado pelo exportador no curto prazo. O maior desafio será adaptar os produtos às exigências, às normas técnicas e às preferências dos novos mercados. Produtos mais padronizados, ou empresas que já mantêm relações comerciais com outros países, tendem a fazer essa transição com maior facilidade. É o caso da carne suína, também atingida pelas tarifas, mas que vem ampliando sua presença no mercado asiático, especialmente no Japão, o que facilita a diversificação das vendas e reduz a dependência do mercado norte-americano.
Rio Grande do Sul luta pelas margens
No Rio Grande do Sul, o quadro é igualmente severo. O estado exportou US$ 1,6 bilhão aos Estados Unidos em 2025, com US$ 939,6 milhões impactados, o equivalente a 57,1% das vendas ao mercado americano. Quando se considera o efeito cumulativo de outras tarifas, como as da Seção 232, o impacto sobe para 87,2% dos embarques gaúchos. O problema não está apenas no volume, mas no perfil da pauta exportadora gaúcha, com grande presença de produtos industrializados. Diferentemente das commodities, esses produtos dependem de especificações técnicas, certificações, padrões regulatórios, canais de distribuição, assistência técnica e relações comerciais construídas ao longo do tempo. Por isso, substituir o mercado americano no curto prazo é muito difícil. É preciso prospectar clientes, adaptar produtos, negociar contratos e construir uma nova estrutura comercial e logística. E isso demanda tempo e pode significar redução de margens e descontos de preços.
Entre os setores mais expostos estão calçados, madeira, tabaco, máquinas, equipamentos e produtos de metais. Claudio Bier, presidente da Fiergs, afirma que o maior risco está na perda de margem. "Para evitar ruptura com clientes americanos, muitas empresas acabam absorvendo parte do custo da tarifa, o que reduz lucro, enfraquece a capacidade de investimento e aumenta a ociosidade industrial", afirma. Segundo ele, o impacto deve ser medido não só pela queda de exportações, mas também pela perda de escala, clientes e participação de mercado.
A situação preocupa especialmente regiões como o Vale do Rio Pardo e o Vale do Sinos, onde o efeito das tarifas se espalha por toda a cadeia produtiva, atingindo fornecedores de matéria-prima, transporte, armazenagem e serviços especializados. Em setores mais estratégicos para a indústria americana, alguns importadores têm demonstrado apoio às empresas brasileiras, porque também são afetados pelo aumento de custos. Em outros, onde a substituição do fornecedor é mais simples, o risco de rompimento contratual cresce rapidamente. "Em resumo, quanto mais estratégico for o produto brasileiro e menor a possibilidade de substituição, maior tende a ser o interesse dos próprios importadores americanos em buscar uma solução", explica Bier.
Paraná busca por diálogo técnico
No Paraná, o tom é de diplomacia. O estado exportou US$ 1,2 bilhão aos Estados Unidos em 2025, com US$ 693,9 milhões impactados pelas tarifas, o que representa 57,5% do total. A Fiep vê efeitos diretos sobre a indústria madeireira, além de segmentos como revestimentos cerâmicos, móveis e papel. O superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, aponta preocupação com municípios como Campo Largo e cidades dos Campos Gerais que estão na linha de frente desse impacto. A estratégia paranaense tem sido mostrar ao governo americano que muitos desses produtos, como cerâmicas e máquinas, são essenciais para a própria indústria dos Estados Unidos e não possuem fornecedores alternativos com a mesma qualidade e escala. "Em alguns casos, essa conversa técnica já surtiu efeito, garantindo a inclusão de produtos como tilápia, mel, café solúvel e couro em listas de exceção", lembra Mohr.
A entidade também alerta que, em cidades como Bituruna e Guarapuava, a dependência do setor madeireiro em relação ao mercado americano é alta, o que aumenta a vulnerabilidade local. "O município de Bituruna, por exemplo, mais de 80% dos empregos industriais estão ligados a empresas do setor. Em Guarapuava, mais de 30% dos empregos industriais também são gerados por esse segmento", reforça o superintendente.
A diversificação de mercados é o caminho, mas uma solução de médio e longo prazo. A Fiep defende a retomada urgente das negociações entre os governos, acreditando que o diálogo técnico e diplomático pode preservar uma relação comercial construída ao longo de décadas. "É um trabalho de paciência, onde a sensibilização dos importadores americanos é peça-chave para provar que as tarifas acabam, no fim das contas, encarecendo o custo para o próprio consumidor dos Estados Unidos", ressalta.
A dimensão desse impacto dependerá principalmente da duração das medidas, da reação dos compradores americanos, da capacidade das empresas de preservar contratos e da velocidade com que conseguir abrir mercados alternativos. "Neste momento, é mais adequado falar em aumento da vulnerabilidade industrial e risco para o nível de atividade e o emprego nessas regiões, e não antecipar um processo de desindustrialização", finaliza Mohr.
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