São Paulo, os 467 anos da terra prometida

Tive muitas vidas na cidade. Todas foram invariavelmente boas
Foi lá que descobri que em nenhum lugar ao sul da linha do Equador eu encontraria uma cidade tão inclusiva, que oferecesse tantas avenidas de vida aos que chegavam

De Paris (França)

Para os que enxergam de fora, deve ser difícil aceitar que alguém goste de São Paulo incondicionalmente. A maioria ainda tem no imaginário que é aquela terra a que acorremos como último recurso. Ou seja, quando as oportunidades estão limitadas no lugar de origem, então a pessoa se muda para São Paulo – como fazem os dekasseguis que vão para o Japão, por tempo suficiente para juntar algum dinheiro, e depois voltar correndo para as raízes. Eu mesmo quando cheguei à cidade há 40 anos, tinha uma estranha sensação quando perguntava a um taxista há quanto tempo ele estava ali e o ouvia falar de décadas. Para mim, era surreal, para além da minha pouca idade. Era como se a pessoa tivesse cedido a um feitiço, caído numa armadilha de que era difícil se desvencilhar. Eu não achava o que dizer, era o mesmo que tentar convencer um drogado a largar o vício. Não havia palavras que concorressem com aquele olhar apaixonado, quase em transe: "Aqui, diziam, se você não for preguiçoso, não há limites para o sonho. Devo tudo a esta cidade." Era o que ouvia de médicos, advogados, chapeiros, frentistas, engenheiros e até de ambulantes. Mesmo os que continuavam levando uma vida modesta, enchiam a boca ao falar de suas conquistas, o que dava boa medida das agruras que tinham deixado para trás, e do quanto se sentiam satisfeitos.

Tive muitas vidas em São Paulo. Todas foram invariavelmente boas. Não cheguei à cidade em busca de fortuna, mas de experiências, de vivências que viessem somar à bagagem de mundo que eu já vinha acumulando há uma década. Flechado por ela aos 19 anos, portanto quatro antes de fixar residência, foi lá que descobri que em nenhum lugar ao sul da linha do Equador eu encontraria uma cidade tão inclusiva, que oferecesse tantas avenidas de vida aos que chegavam. A ideia de ser só "mais um número", como diziam os que se espantavam com seu gigantismo e impessoalidade, só somavam ao fascínio que me embevecia. Naqueles dias, ainda havia imigrantes que falavam com sotaque pesado. No ambiente de trabalho, você se via cercado de pessoas de pelo menos cinco origens. Numa sala você tinha um japonês, um húngaro, um armênio, um coreano e um peruano. Tudo em São Paulo me parecia bom. Dependia de seu olhar, de sua noção sobre o que era importante para a sua vida. Aí sim, você encontraria um sapato na medida de seu projeto. Eu nem sempre soube o que quis. Das vezes que quis ser como todo mundo, a cidade me colocou de frente para um estranho vazio. Mas esse vazio começava dentro de mim, não nela. Nas relargadas, as avenidas diziam: "Acelere sem pena e force os limites." Assim fiz.

A última lembrança que tenho de um aniversário de São Paulo foi há 17 anos, quando dos 450. Como haveria um grande show na esquina da Ipiranga com a São João, aluguei um quarto num hotel da área e improvisei um camarote para onde chamei meus convidados para ver Caetano Veloso. Um ano sem visitá-la me dá uma espécie de vertigem de reencontro. Mesmo sabendo que nada será como antes, gosto da ideia de retomar as caminhadas, cumprindo meus trajetos preferidos. É como se estando em São Paulo, eu ganhasse uma espécie de imunização contra a adversidade – e era aí que residia o perigo de ter precipitado uma volta em pleno 2020. Da sorte, é melhor não abusar. De vez em quando me dizem que a hora do desenlace está chegando. Que a cidade é poluída, ruim para asmáticos. Que São Paulo já me deu o que podia dar, que seria hora de respirar outros ares. Que comece a analisar as opções que teria mesmo porque o pós-pandemia força a uma refundação de vida. Pode ser, não estou descartando nada. Mas acho que só a chamada força maior conseguiria que eu a deixasse para me fixar em outro lugar do mundo – tanto quanto "fixar-se" é tangível para mim. Seja como for, nenhuma cidade me emocionou tão marcadamente por tanto tempo. É isto.

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Quarta, 26 Janeiro 2022

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