Fuga de cérebros: apenas 1,2% dos brasileiros com doutorado vivem fora do país
Taxa medida em estudo do Ipea é considerada baixa
O fenômeno da "fuga de cérebros" pode ser um problema menor do que parece no Brasil. Apenas 1,2% dos doutores titulados no país entre 2013 e 2024 tinham residência no exterior em 2024. O percentual é significativamente inferior ao observado em países como Estados Unidos (13,4%), Reino Unido (8%) e Suíça (20%) e indica que a emigração de profissionais altamente qualificados é menor do que o senso comum sugere. Os dados são do artigo "Emigração de Doutores Titulados no Brasil: Há Evidência de Fuga de Cérebros?", de Daniel Gama e Colombo, especialista em políticas públicas e gestão governamental e coordenador de métodos, dados e projeções microeconômicas na Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset/Ipea). O artigo foi publicado na edição nº 81 do Boletim Radar, lançado em maio.
Para o autor, a baixa proporção de doutores no exterior também pode refletir os entraves à internacionalização das universidades brasileiras. "Acredito que uma possível explicação dos resultados é que a maior parte de nossos doutores possui dificuldade para inserção no mercado acadêmico internacional, especialmente considerando a hipercompetitividade desse mercado nos anos recentes", analisa Daniel Gama e Colombo. "Essa interpretação é coerente com a baixa internacionalização das universidades brasileiras (problema que vem sendo enfrentado e reduzido), que dificulta que seus egressos consigam competir por posições e publicações em outros países", conclui.
"Vale destacar o lado positivo dos resultados apresentados. Uma reduzida fuga de cérebros indica que esses profissionais altamente qualificados permanecem no país para contribuir para a ciência, economia e sociedade brasileira. Portanto, o investimento – público, na maior parte das vezes – na formação desses indivíduos gera retornos para o país. Sabemos que o conhecimento produzido e adquirido por esses egressos ao longo do doutorado transborda para outros indivíduos, firmas e organizações, beneficiando a sociedade de maneira mais ampla", observa o pesquisador.
O estudo revela que 3.145 doutores formados no Brasil tinham residência registrada no exterior em março de 2024, última informação disponível. A pesquisa utiliza dados de discentes da pós-graduação stricto sensu da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e registros do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal. Foram incluídos apenas os concluintes de doutorado no ano da titulação. A base final reúne 254.988 indivíduos, o equivalente a cerca de 99% dos doutores formados no país no período analisado. A emigração de profissionais altamente qualificados tem ganhado atenção de pesquisadores e formuladores de políticas públicas em diversos países. O tema motivou recentemente uma chamada pública do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, voltada à atração e retenção, no Brasil, de pesquisadores com experiência acadêmica ou profissional no exterior.
Para o autor, a baixa proporção de doutores no exterior também pode refletir os entraves à internacionalização das universidades brasileiras. "Acredito que uma possível explicação dos resultados é que a maior parte de nossos doutores possui dificuldade para inserção no mercado acadêmico internacional, especialmente considerando a hipercompetitividade desse mercado nos anos recentes", analisa Daniel Gama e Colombo. "Essa interpretação é coerente com a baixa internacionalização das universidades brasileiras (problema que vem sendo enfrentado e reduzido), que dificulta que seus egressos consigam competir por posições e publicações em outros países", conclui.
Perfil dos cientistas emigrantes
As áreas de ciências exatas e da Terra, ciências biológicas, ciências da saúde e engenharias concentram os maiores percentuais e números absolutos de emigrados. O resultado está associado ao maior grau de internacionalização e à mobilidade mais elevada nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Cerca de 15% dos ocupados exercem funções como professores do ensino superior, resultado compatível com a trajetória acadêmica de parte relevante dos egressos de doutorado. Por outro lado, aproximadamente 24,1% dos emigrados declararam não ter ocupação. O dado pode refletir a instabilidade de vínculos comuns na carreira acadêmica e de pesquisa, como bolsas de pós-doutorado e contratos temporários.
"Vale destacar o lado positivo dos resultados apresentados. Uma reduzida fuga de cérebros indica que esses profissionais altamente qualificados permanecem no país para contribuir para a ciência, economia e sociedade brasileira. Portanto, o investimento – público, na maior parte das vezes – na formação desses indivíduos gera retornos para o país. Sabemos que o conhecimento produzido e adquirido por esses egressos ao longo do doutorado transborda para outros indivíduos, firmas e organizações, beneficiando a sociedade de maneira mais ampla", observa o pesquisador.
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