Um refúgio para situações de crise e incerteza

Um número cada vez maior de brasileiros está alocando investimentos no mercado internacional para atenuar riscos e melhorar a rentabilidade do capital
A B3 — novo nome da Bovespa — representa menos de 1,5% do mercado acionário mundial em volume e tem menos de 1% das empresas listadas

Chegou a hora de os brasileiros olharem para o mercado internacional com mais atenção. A maioria das carteiras de investimentos no país ainda têm grande concentração em ativos locais, um legado dos tempos em que a taxa de juros era altíssima e a regulamentação dificultava investir no exterior. Nos últimos anos, a queda na taxa Selic e a flexibilização das regras forçou os brasileiros a repensarem as aplicações. Investidores mais sofisticados, mais exigentes, mais informados e com acesso ao mercado internacional estão ativamente atuando no mercado externo e impulsionando a globalização da poupança nacional.

O desafio de qualquer investidor é construir carteiras que atinjam as metas de retorno desejadas sem riscos excessivos. A solução clássica é diversificar as aplicações, mas se o patrimônio estiver investido em um único país e em uma única moeda, isso não acontecerá efetivamente. Concentrando a carteira no mercado doméstico, o investidor estará completamente exposto à volatilidade e às incertezas da conjuntura brasileira. Se houver recessão econômica, crise política ou piora sistêmica, todas as aplicações perdem valor ao mesmo tempo. Essa concentração excessiva de riscos é perigosa e desnecessária.

Receita caseira
O viés doméstico dos investidores brasileiros foi exacerbado pela política de juros altos que caracterizou o sistema financeiro do Brasil por anos a fio. Buscando combater a inflação e compensar erros na política fiscal, o Banco Central criou vantagens para investir na renda fixa local, cujos ativos são referenciados à Selic — a taxa básica de juros brasileira.

Os títulos atrelados a essa taxa flutuante diária proporcionaram retornos elevados, com baixo risco e quase sem volatilidade. Esse cenário reduzia os incentivos para os brasileiros procurarem outras alternativas para investir. Quando a política do Banco Central começou a mudar e as taxas caíram, as aplicações de renda fixa perderam atratividade. A Selic, que historicamente se mantinha em dois dígitos, chegou à mínima de 2% ao ano. Hoje com retorno de 1,4% anual, a poupança nem sequer supera a inflação. Os investidores reagiram aos juros em queda migrando para classes de ativos mais arriscadas.

Em 2020, os fundos de renda fixa brasileira sofreram resgates de R$ 41,2 bilhões, enquanto a bolsa de valores registrou entrada líquida de R$ 69,4 bilhões, mesmo com a economia em retração. A migração para a bolsa de valores é muito acentuada. O Brasil chegou em abril à marca de 3,56 milhões de CPFs investindo em ações, um crescimento de 112% em apenas um ano. Os três estados do Sul participaram da migração com destaque, ocupando a 4ª, 5ª e 6ª posição no ranking nacional. Paraná tem cerca de 225 mil contas, Rio Grande do Sul pouco mais de 200 mil e Santa Catarina, 173 mil.

Contudo, esse movimento pode ser perigoso. Na tentativa de recuperar a rentabilidade perdida, muitos investidores estão aumentando demasiadamente o nível de risco. A bolsa brasileira é pequena, concentrada e oferece um número muito limitado de alternativas, tanto em termos de empresa quanto de setores. A B3 — novo nome da Bovespa — representa menos de 1,5% do mercado acionário mundial em volume e tem menos de 1% das empresas listadas. Altamente volátil e totalmente atrelada ao risco-Brasil, é pouco provável que as melhores opções de investimento estejam concentradas nesta pequena parcela do mercado global. Ao migrar da renda fixa para a renda variável, o investidor aumenta consideravelmente o risco sem visibilidade quanto ao retorno futuro.

Carteiras inteligentes
A ideia de que é necessário aumentar o risco para melhorar a rentabilidade é falsa. A famosa relação inversa entre risco e retorno (chamada frequentemente de "gangorra do risco/retorno") é válida para ativos individuais, mas não necessariamente para o conjunto da carteira de investimentos. Esse ponto pode parecer uma sutileza, mas tem enormes implicações na vida do investidor. Devido à baixa correlação, incluir aplicações no exterior no mix de investimentos permite ao investidor aumentar o retorno e, ao mesmo tempo, diminuir o risco. É por essa razão que sempre se deve pensar na carteira como um todo, nunca em aplicações isoladas. Sem entrar em discussões abstratas, o histórico do mercado comprova, na prática, que a diversificação internacional aumenta a rentabilidade e, ao mesmo tempo, diminui o risco.

Normalmente, os investidores brasileiros buscam diversificar entre ativos locais com diferentes perfis: ações, fundos imobiliários, títulos prefixados, títulos indexados à inflação, investimentos alternativos e outros. É um bom começo, mas não o suficiente. A única diversificação efetiva é a internacional. Ativos externos estão expostos a um conjunto diferente de fatores econômicos e políticos, o que os torna pouco sensíveis à conjuntura brasileira. Outra variável importante é a moeda. No Brasil e no mundo, a história mostra que crises econômicas geralmente são acompanhadas de desvalorizações cambiais. Proteger o capital em moedas consideradas "portos seguros" pode ser valioso durante eventos de crise. O dólar americano é uma reserva universal de valor que tende a se valorizar quando os investidores procuram segurança, como tem sido demonstrado na crise do Covid-19.

Como uma parte significativa do consumo dos brasileiros está "dolarizado", principalmente nas classes de maior poder aquisitivo, somente uma moeda forte garante poder de consumo global. Poupar em real para gastar em dólar não é uma boa ideia porque cria "descasamentos" imprevisíveis. Além da proteção, as oportunidades externas são atrativas demais para serem ignoradas. Investimentos internacionais permitem que o brasileiro lucre com o crescimento da economia global, participando de ecossistemas como o de inovação, além de outras oportunidades que acontecem somente em outros países. Mas se os mercados internacionais são a alternativa inteligente para melhorar resultados, porque muitos brasileiros ainda permanecem "fechados" na hora de investir? Além do viés doméstico, existe falta de informação. Devido à falta de familiaridade com o mercado externo (ou para não perder o cliente), bancos e corretoras no Brasil raramente oferecem aplicações externas. Infelizmente, isso restringe as opções dos clientes e pereniza carteiras ineficientes atreladas ao instável mercado doméstico.

Os juros baixos e a incerteza política persistente no Brasil criaram um ambiente desafiador no qual a abordagem tradicional não é mais suficiente para investir com sucesso. Pressionados a adicionar novas fontes de retorno e encontrar formas mais efetivas para mitigar riscos crescentes, investidores estão à procura de alternativas. Felizmente, o mercado global é grande, rentável, diversificado e está cada vez mais acessível. Com a flexibilização das regras e a maior integração brasileira na economia mundial, o acesso ao mercado externo está sendo democratizado e desmistificado.

Da melhor rentabilidade ao maior número de oportunidades, passando por maior segurança, menor risco e possibilidade de acumular capital em moeda forte, as vantagens são inúmeras. Nos próximos anos, é provável que investimentos externos desempenhem um papel cada vez mais importante na vida dos brasileiros. Após globalizar o consumo e o estilo de vida, chegou a hora de globalizar os investimentos.

*Marcelo Cabral tem 32 anos de experiência no mercado financeiro internacional. Foi gestor de investimentos internacionais no J. P. Morgan em Nova Iorque, presidente do Bradesco Europa, em Londres e Luxemburgo, da Bradesco Securities, em Nova Iorque, e vice-presidente do Morgan Stanley, Credit Suisse e J. P. Morgan em Nova Iorque.

Artigo publicado originalmente na edição on-line 337 de AMANHÃ. Clique aqui para ler a publicação na íntegra, mediante pequeno cadastro.

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Quarta, 17 Agosto 2022

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