C.Vale: A revolução pela tecnologia
O case a seguir faz parte do livro "Paraná | Grandes Marcas — volume II", publicado pelo Instituto AMANHÃ.
"Eu era chamado de visionário louco. Diziam que eu ia quebrar a cooperativa". A frase foi ouvida dezenas de vezes por associados e funcionários da C.Vale ao longo das três últimas décadas. Ela é repetida sempre que o presidente do Conselho de Administração da C.Vale, Alfredo Lang, relembra o processo que resultou na industrialização da organização. A cooperativa decidiu investir em avicultura sem nenhuma experiência com a atividade. A história se passou nos anos 1990, período em que a então Coopervale enfrentava dificuldades financeiras. Era um período em que a maioria dos associados vivia da produção de grãos, atividade altamente dependente do clima. Quebras de safra tinham um grande impacto sobre a renda dos produtores e sobre as receitas da cooperativa.
Para enfrentar o problema, Lang recebeu o desafio de formular um plano de modernização. Rodou pelo interior dos poucos municípios que formavam a área de atuação da empresa e realizou mais de 100 reuniões ouvindo e anotando reivindicações e sugestões. "A gente começava as reuniões de manhã e ia até o final da tarde. O pessoal não ia embora", relembra. Ele tinha pouco mais de 40 anos na época.
A rodada de reuniões resultou na elaboração de um plano onde constavam pedidos de melhorias dos mais variados pontos. O principal deles era a industrialização. Cinco anos depois, em 1995, Lang assumiu a presidência da cooperativa e se dispôs a tirar as medidas do papel. O plano previa a construção de um complexo avícola. Todos eram favoráveis à industrialização, mas ninguém se entendia sobre o local de construção. "Cada município queria para si, não havia entendimento", resume. A solução exigiu uma grande costura política. Lang propôs a divisão do ICMS entre os municípios envolvidos e conseguiu formalizar um acordo neste sentido, garantindo o rateio do imposto por longos anos.
Industrialização
O complexo avícola entrou em operação em 1997 e o tributo passou a ser dividido proporcionalmente à produção de frangos de cada município. A solução era inovadora já que, tradicionalmente, o imposto fica no município sede da indústria. Inovadora também foi a tecnologia adotada pela C.Vale para produzir frangos. Antes de iniciar as obras do complexo, Lang e alguns auxiliares percorreram os Estados Unidos e a Europa para conhecer os sistemas de produção mais avançados do mundo.
A solução adotada pela C.Vale resultou no primeiro sistema integrado de produção comercial de frangos em ambientes climatizados. A estratégia revolucionária foi fundamental para melhorar a rentabilidade da atividade e, em consequência, por levar produtores de grãos a diversificar. A iniciativa também assegurou à C.Vale uma vantagem competitiva que lhe permitiu conquistar espaços em um mercado altamente concorrido, dominado por grandes empresas. Essa vantagem veio da melhoria da conversão alimentar dos frangos. Em ambientes com temperatura controlada, as aves ingerem mais ração e ganham peso mais rapidamente. Além disso, aviários climatizados comportam números maiores de aves, o que gera ganho de escala.
A combinação de eficiência na produção a campo com alta tecnologia de processamento da carne de frango no abatedouro assegurou a padronização da qualidade dos cortes. "Eu estive na Inglaterra e fui a um restaurante. Fiz questão de procurar o chefe de cozinha e quis saber o motivo de eles comprarem carne de frango da C.Vale. Ele me respondeu: "Porque tem sempre o mesmo padrão de qualidade". Lang conta que gosta de clientes exigentes. "Eles querem qualidade e se dispõem a pagar mais por isso", revela.
Qualidade e inovações
Para ter acesso aos mercados mais exigentes do mundo, a C.Vale ajustou seus processos produtivos às exigências das principais certificadoras internacionais de qualidade. Atualmente, a cooperativa possui seis dessas certificações, que lhe garantem acesso ao mercado britânico, japonês e alemão, entre outros. A avicultura da C.Vale ganhou relevância a ponto de receber delegações estrangeiras interessadas em conhecer a atividade. Em fevereiro, deputados alemães vieram saber porque o Brasil consegue ser tão competitivo no segmento.
O plano de modernização elaborado por Lang avançou bastante em três décadas. A produção de frangos avançou para 640 mil frangos/dia e outras indústrias entraram em operação. A cooperativa processa raiz de mandioca para produção de amido. No segmento carnes, a C.Vale criou um sistema de integração para produção de tilápias. Atualmente, mais de 200 associados produzem 240 mil tilápias por dia. A atividade passou a ser uma nova fonte de renda, capaz de reduzir as variações de receita quando o clima prejudica a produção de grãos. A cooperativa tornou-se uma das maiores produtoras nacionais de tilápia, mas não ficou apenas abastecendo o mercado interno. Abriu mercado nos Estados Unidos enviando carregamentos de tilápia por avião até Miami, na Flórida. O tarifaço norte-americano reduziu o volume, mas a C.Vale conta com um acordo que permita retomar em breve as quantidades anteriores.
Agora, a exemplo do que fez com o frango, a cooperativa está possibilitando aos integrados da piscicultura a tecnologia de produção de tilápias em açudes recobertos por geomembrana. Essa inovação reduz acentuadamente a utilização de água e permite a criação de até 30 peixes por metro quadrado de água contra seis a oito peixes pelo sistema convencional. "Quem tem propriedades pequenas ou dispõe fontes limitadas de água também pode entrar na atividade", explica o presidente. A cooperativa fornece ao integrado o peixe com até 30 gramas, a ração, assistência técnica e faz a retirada do peixe quando ele atinge aproximadamente 950 gramas.
A industrialização da C.Vale avançou também no segmento grãos. A cooperativa colocou em operação, em junho de 2024, uma esmagadora de soja capaz de processar 60 mil sacas de soja/dia. O farelo de soja e parte do óleo entram na composição de rações para frangos, peixes e bovinos. Os derivados do grão não utilizados pela cooperativa são vendidos a terceiros.
Três décadas depois
Quase trinta anos depois do início do processo de modernização, a receita gerada pelas indústrias responde por aproximadamente 25% do faturamento da C.Vale. Em 2025, a cooperativa faturou mais de R$ 25 bilhões. As indústrias empregam mais de oito mil pessoas e na região do complexo agroindustrial existem mais vagas do que pessoas para trabalhar. Alfredo Lang, agora com 50 anos de C.Vale e 77 anos de idade, avalia que a longa jornada pela agroindustrialização valeu a pena. "Aproveitamos a vocação dos produtores e a matéria-prima abundante para agregar valor à soja e ao milho, transformando proteína vegetal em proteína animal. Criamos alternativas de renda, milhares de empregos e ampliamos as receitas da cooperativa. Foi uma jornada dura, mas recompensadora", resume o presidente. O "visionário louco" entende que as conquistas exigem persistência e confiança. "Você tem que dominar aquilo que faz e perseguir sempre a excelência. O resultado aparece. Tem que arregaçar as mangas e colocar a mão na massa. É uma questão de querer", finaliza.
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