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Sobre meus voos favoritos: o REC-GRU

Este era o voo da Varig que fazia a rota do Recife para São Paulo. O roteiro era o clássico, que praticamente nunca mudou
Ao desembarcar em São Paulo, olhava com uma certa pena os que ainda iam até o extremo sul do Brasil

De Paris, França

Este era o voo da Varig – primeiramente em Boeing 737, mais tarde em 767 –, que fazia a rota do Recife para São Paulo. Durante anos, para o aeroporto de Congonhas. Mais tarde, para Guarulhos. Era quase sempre pontualíssimo, e às 18 horas começava a taxiar na pista ainda quente do aeroporto dos Guararapes. Vinha de Fortaleza, onde começava. E terminava, quase à meia-noite, em Porto Alegre. Durante muitos anos, quando a Varig reinava sobranceira nos céus do Brasil, era nele que voltava do fim de semana no Recife. Teve vezes de chegar aos Guararapes na noite da sexta-feira ou na madrugada do sábado – fosse de Lisboa ou Paris –, de me reenergizar nas areias da praia, para depois tomá-lo ao anoitecer do domingo. Era perfeito.

Era um voo onde encontrava muita gente conhecida. Geralmente pessoas de Pernambuco que iam trabalhar durante a semana em São Paulo, muitas vezes voltando pelo Rio ou por Brasília. O roteiro era o clássico, que praticamente nunca mudou. Decolávamos sobre a zona sul do Recife, sobrevoávamos as praias de Piedade e Candeias, e com 12 minutos já víamos lá embaixo Ponta de Serrambi. Ao trigésimo minuto, víamos Maceió; ao quadragésimo-oitavo Aracaju, e o facho luminoso de uma refinaria. Lá pelo minuto 70 deixávamos para trás Salvador. Uma luz ou outra assinalava Jequié ou Vitória da Conquista, mas o espetáculo maior viria com Belo Horizonte, no minuto 122 ou 125. Ao cabo de três horas cravadas, estávamos quase na pista de chegada.

Geralmente eu tomava uísque com algum conhecido, e a tripulação não se fazia de rogada para servir-nos doses generosas. Ao desembarcar em São Paulo, olhava com uma certa pena os que ainda iam até o extremo sul do Brasil. "Coragem, boa continuação". Doía mesmo quando se tratava de lindas gaúchas que tinham ido tomar sol no Nordeste. De incidente mais sério, só uma vez em que voltamos quando Maceió já se anunciava pela frente. Uma turbina silenciou e o comandante fez uma manobra de retorno que não me passou despercebida. Isso porque eu já ficara alerta ao perceber uma súbita mudança de ruídos na cabine. Pedi um uísque duplo e chegamos aliviados aos Guararapes. Muitos passageiros não quiseram reembarcar e deixaram para o dia seguinte.

Naquela época, falo aqui especialmente dos 15 anos compreendidos entre 1980 e 1995, o acesso à sala VIP era de acordo com a cara do freguês, digamos assim. Os atendentes tinham seus favoritos e davam os passes aos que achavam que tinham cara de importante. Por um pequeno adicional, o 767 passou a oferecer uma espécie de classe preferencial, e o embarque era mais informal do que é hoje, mas muito mais divertido, apesar do caos. Eu chegava a São Paulo na noite do domingo com muito bom humor, pronto para encarar a semana. De acordo com quem encontrasse no avião, ainda saía para jantar numa cantina de que estivesse com saudades. O RG 321, que em sentido inverso saía de São Paulo lá pelas 17h40, era cheio de significado.

Para mim, significava que eu me tornara um daqueles passageiros que, quando criança, eu via desembarcar do Caravelle da Cruzeiro da Sul quando o terminal ainda era aberto e as palmeiras balançavam com o calor das turbinas. Aquele cheiro de querosene de avião seria de certa forma o combustível de minha vida, que então começava. O RG 321 simbolizava tudo isso. Quando estava fora, eu me via lá dentro. Quando passei a ocupar um assento lá dentro, eu me imaginava lá fora, acenando para os passageiros desconhecidos que estavam a bordo. Assim é a vida. No próximo capítulo desta série, falarei sobre o RG 8864, entre Guarulhos e Nova York, que tomei com inusitada frequência entre 1985 e 1995. Eis outro destino que vinha associado a muitas alegrias.

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Sábado, 08 Agosto 2020

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