Como os produtores de vinho europeus receberam o acordo com o Mercosul
Se no Brasil há bastante preocupação com alguns dos desdobramentos do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE), o clima é de otimismo no Velho Continente. Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, associação que promove a imagem dos rótulos portugueses, crê que o acordo ajudará a intensificar a comercialização de vinhos para o Brasil. O país é o maior mercado para os vinhos portugueses, excluindo o Vinho do Porto. "Este acordo irá intensificar a comercialização de vinhos de Portugal no mercado na Mercosul, especialmente no Brasil. A redução tarifária também proporcionará aos consumidores brasileiros o acesso aos mesmos vinhos [que já exportamos], mas com um preço mais baixo. Os melhores vinhos também chegarão com valores mais acessíveis. Por outro lado, para os produtores de vinho no Brasil, também lhes abre as portas do mercado comunitário", avalia em entrevista ao Cepas & Cifras.
A ViniPortugal ainda não tem uma previsão exata do volume comercializado que pode ser elevado pelo fato que a eliminação das tarifas não é imediata, mas sim gradual, podendo chegar a oito anos até que sejam totalmente removidas. "Toda a instabilidade cambial, política e econômica que temos vivido nos últimos anos também são fatores importantes e que poderão afetar o mercado dos vinhos. Aquilo que estimamos é que haja uma redução de preço dos vinhos ao consumidor e que isso proporcione o acesso a vinhos a um maior número de consumidores no Brasil", contextualiza Falcão. De janeiro a novembro do ano passado, o Brasil foi o segundo destino das exportações portuguesas de vinho, representando cerca de 9% em valor e 8,2% em volume. Falcão antecipou ao Cepas & Cifras que o Brasil será o mercado de maior investimento dos Vinhos de Portugal, com mais de 1,4 milhão de euros previstos para este ano. "Serão várias ações em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Curitiba, Recife, Brasília, além da Wine South America (WSA), em Bento Gonçalves", enumera o presidente da ViniPortugal.
Quem também exala otimismo com a negociação entre os dois blocos é Gabriel Picard, presidente da Federação Francesa dos Exportadores de Vinhos e Destilados (FEVS), entidade que congrega 550 companhias que respondem por 85% do volume exportado pelo país nessas duas categorias de bebidas. "Esta é uma grande oportunidade para o setor, porque o desenvolvimento deste mercado e do comércio entre nossos dois países depende de uma cooperação cada vez mais forte e intensa entre os exportadores franceses e seus parceiros brasileiros, em benefício dos consumidores brasileiros, que terão acesso a uma maior diversidade de produtos", declarou Picard ao Cepas & Cifras. Ele também faz questão de ressaltar o fato da proteção das Indicações Geográficas (IGs) como um fator importante, uma vez que oferece garantias adicionais tanto aos produtores como aos consumidores.
"Em primeiro lugar, para os produtores, que usam um nome local que aumenta o valor de seu produto. Isto é verdadeiro para os produtores brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios, bem como para os produtores europeus, incluindo os franceses. Em segundo, aos consumidores, pois a proteção desses nomes garante a autenticidade do produto, sua origem e suas características associadas. Assim, a proteção das IGs garante tanto uma concorrência leal entre os produtores no mercado como uma informação honesta e transparente aos consumidores, para que eles possam fazer escolhas estando bem informados", justifica.
O presidente da FEVS prefere não fazer projeções de aumento de volume ou mesmo redução de preços em razão do ambiente global. Na visão dele, as tensões geopolíticas atuais estão afetando significativamente a confiança das empresas e dos consumidores, o que, por sua vez, prejudica a demanda, fazendo com que ela desacelere. Outro fator é o próprio mercado brasileiro que já é abastecido com rótulos de vários países, começando pelo próprio Mercosul e também pelo Chile. "Devemos considerar a realidade do mercado brasileiro, que hoje é primariamente um mercado de cerveja antes de ser um grande mercado vinícola. Isso significa que a abertura oferecida pelo acordo UE-Mercosul marcará o início de importantes esforços promocionais, informativos e educacionais para ajudar os consumidores brasileiros a descobrir nossos produtos, apreciá-los e gradualmente desenvolver interesse por eles", destaca. "Esta abertura é uma oportunidade para todos os produtores de vinho, seja do Mercosul ou da Europa. Na verdade, quanto mais produtos disponíveis, maior a diversidade, mais experiências os consumidores podem experimentar e mais o mercado cresce. É um círculo virtuoso e vamos iniciá-lo!", avisa Picard.
A Federação Espanhola do Vinho (FEV), que reúne mais de 950 vinícolas associadas e responsáveis por 83% da receita total de vinhos engarrafados em todo o país [a Espanha comercializa um enorme volume de vinho a granel, especialmente para os vizinhos da Europa], estima que o acordo melhorará significativamente o acesso ao mercado por meio da eliminação gradual de tarifas, do fortalecimento da proteção das IGs, da simplificação dos procedimentos de importação e da criação de condições competitivas mais previsíveis e equitativas para o comércio de vinhos. O CEO José Luis Benítez relatou ao Cepas & Cifras que a presença de vinhos espanhóis no Brasil ainda é muito limitada, com apenas 24,8 milhões de euros em exportações em 2024, um aumento de 16,3% em comparação com 2022. "No entanto, acreditamos que o Brasil possui um enorme potencial de desenvolvimento, tanto por sua população e classe média em crescimento, quanto por ser um mercado com significativas afinidades culturais e históricas e costumes semelhantes", pontua.
Para Benítez, o acordo comercial permitirá a eliminação gradual das tarifas, que no caso do Brasil giram em torno de 20%. "Isso deverá facilitar o acesso ao mercado para vinhos europeus e espanhóis, impulsionando os volumes de exportação para a região e a competitividade dos nossos vinhos. Se já observamos um crescimento entre 15% e 20% com as tarifas atuais, tudo indica que, uma vez eliminadas completamente as tarifas, poderemos ver esse crescimento dobrar, com aumentos anuais entre 30% e 40%, pelo menos durante os primeiros anos de implementação efetiva do acordo e desde que este seja acompanhado por esforços de marketing direto para o vinho espanhol no Brasil", projeta.
Nos últimos anos, a FEV concentrou-se em garantir o apoio político da Espanha ao acordo, o que não foi fácil devido à oposição de alguns setores agrícolas. A entidade também realizou atividades promocionais no passado, como a organização do pavilhão espanhol na extinta Expovinis, em São Paulo. "Agora, entramos em uma nova fase na qual é crucial fortalecer a imagem e a presença do vinho espanhol no Brasil. Para isso, contamos com recursos como o Instituto Espanhol de Comércio Exterior (CEX) e a Corporação Interprofissional do Vinho, que serão responsáveis por coordenar a participação em feiras e promover missões comerciais e seminários técnicos no Brasil. Essas iniciativas devem destacar a grande diversidade e as características distintivas do vinho espanhol em comparação com outros vinhos europeus, qualidades que podem agradar aos variados paladares dos consumidores brasileiros", enaltece Benítez.
A União Italiana do Vinho (UIV) também saudou a aprovação do acordo Mercosul-UE. Para Lamberto Frescobaldi, presidente da entidade, o acordo poderá ajudar a expandir o mercado para o vinho italiano e, ao mesmo tempo, fortalecer o sistema de inspeção de produtos. "A UIV também aprecia a forma como o governo italiano lidou com a questão, o que nos permitiu finalizar condições favoráveis", destacou Frescobaldi ainda na sexta-feira (9), após a aprovação pelos embaixadores dos 27 Estados-membros da UE (Coreper).
Segundo a UIV, por razões históricas e culturais, a região sul-americana, que conta com mais de 250 milhões de consumidores, representa um contexto potencialmente receptivo para vinhos europeus e italianos. Atualmente, por exemplo, os vinhos europeus destinados ao Brasil estão sujeitos a aumentos de preço de até 27% para vinhos tranquilos e 35% para espumantes, devido às taxas de importação. "A eliminação gradual dessas taxas nos próximos oito anos poderia impactar a competitividade das empresas em um mercado que atualmente – em parte devido às tarifas – opera em um nível baixo. De fato, as importações de vinho para o Brasil chegam a quase 500 milhões de euros anualmente, enquanto a participação italiana é de apenas 40 milhões de euros, cerca de 8% do total", pontua a UIV.
Itália, França, Espanha e Portugal respondem por aproximadamente mais da metade (51,4%) da elaboração mundial de vinho, de acordo com as estimativas mais recentes da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Argentina, Brasil e Uruguai, países-membros do Mercosul, produzem 6,1% de todo vinho em escala global. O setor vitivinícola brasileiro fechou o ano de 2025 com as exportações de vinhos e espumantes atingindo o valor de US$ 13,3 milhões, uma alta de 26,1% em relação ao ano de 2024. O Mercosul representará uma oportunidade para produtos europeus de alta qualidade, além dos vinhos, mas também entram nesta lista queijos, chocolate e carne de porco, que estão sujeitos a elevadas tarifas. O acordo reconhecerá também 344 IGs europeias, proibindo imitações e termos, símbolos, bandeiras ou imagens enganosas, por exemplo.
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