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Cinquenta e cinco dias em Peking

O país atrasado – e com população muito pobre que havia na época do Movimento Yihéquán – atingiu o posto de maior exportador mundial neste ano
O que era apenas ideológico e político, em 1950, passou a ser comercial e econômico nos anos 2000

Lançado no Brasil em 1963, o filme "55 dias em Peking" (cena acima), sobre o Movimento Yìhéquán ("Revolta dos Boxers"), ocorrido na China em 1900, talvez tenha sido o primeiro contato da minha geração com o país. Com David Niven, Ava Gardner e Charlton Heston nos papéis principais, o filme obteve grande sucesso na época. Três anos depois, surgiu "The Sand Pebbles" ("O canhoneiro do Yang-Tsé"), filme que mostra a turbulenta Shanghai dos anos 1926. Além do fato de serem sobre a China, o que esses dois filmes épicos têm em comum é a atuação militar dos Estados Unidos no país, quando era colônia simultânea das maiores potências ocidentais e do Japão.

Em agosto de 1945, o Exército japonês foi expulso do território chinês, mas somente após a proclamação da República Popular, em outubro de 1949, é que a China se livrou da ocupação por outros países. Mas não se livrou de sofrer bloqueio total pelos Estados Unidos, até fevereiro de 1979. Coincidentemente, em dezembro de 1979 o Congresso chinês aprovou o programa das Reformas e Abertura e, a partir de 1980, o país deslanchou, chegando em 2020 à condição de segunda maior economia mundial, pela paridade cambial (pela paridade do poder de compra é a maior economia desde 2017).

O país atrasado – e com população muito pobre que havia na época do Movimento Yihéquán – atingiu em 2020 o posto de maior exportador mundial, e a condição de potência tecnológica, científica, industrial e econômica, tendo retirado da pobreza mais de 700 milhões de pessoas, nos últimos 40 anos, e se transformado no maior mercado consumidor do mundo. Esse retrospecto ajuda para a análise mais equilibrada do contencioso entre Estados Unidos e China, principalmente porque a temperatura entre os dois países se elevou bastante desde 2017, quando Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. O que era apenas ideológico e político, em 1950, passou a ser comercial e econômico nos anos 2000, e agora é tudo isso junto, em um enfrentamento permanente em todas as áreas, em feroz disputa de mercados, geração de empregos e hegemonia política, militar e tecnológica.

Para o Brasil, o melhor sempre foi não tomar partido nessa disputa dos dois gigantes. No início de 2017, perguntamos aqui em que essa briga beneficiava as empresas e instituições brasileiras com negócios e intercâmbios com a China, nosso maior parceiro comercial então há nove anos.

Agora, no novo ataque dos Estados Unidos contra a China na Organização Mundial do Comércio (OMC), acusando o país de não ser economia de mercado, o governo brasileiro entrou junto, em aberto apoio a um debate vencido no final de 2016, quando acabou o período "probatório" de 15 anos, da entrada da China na entidade – ver artigos a esse respeito publicados aqui em 2016 e também neste link.

Os Estados Unidos estão brigando pela manutenção de sua hegemonia mundial, o que é muito compreensível. Querem impedir que o yuan reduza o poder do dólar como principal moeda das transações financeiras, comerciais e do turismo no mundo, e impedir que o 5G chinês domine a disputa tecnológica e empresarial, para evitar que domine o futuro... Querem continuar também sendo o maior comerciante e o maior investidor. E estão decididos a conseguir tudo isso, nem que o custo para tanto seja aumentar o conflito com o seu principal concorrente.

No entanto, as ações de Trump têm jogado mais água no moinho chinês do que o contrário. Talvez por essas razões, e pela lógica política norte-americana – quando o candidato à reeleição presidencial não está bem nas pesquisas, sempre buscam um providencial "inimigo externo" –, o presidente norte-americano subiu o tom e acusou a China, sem provas, de ser a responsável pela pandemia, no que foi copiado por algumas autoridades brasileiras. Quando se imaginava que as coisas haviam serenado para o lado de baixo do Equador, eis que surge a notícia de que o Brasil se aliou aos Estados Unidos na acusação contra a China feita na Organização Mundial do Comércio (OMC)... Assim, o que já estava ruim promete ficar pior, pois o governo chinês não deverá lidar com essa situação apenas pelas vias diplomáticas tradicionais, e em 2021 o cenário econômico mundial tende a depender da China em maior escala do que dos Estados Unidos.

Novamente as relações Brasil-China entram em rota de colisão, como se fosse um filme antigo que teimamos em rever de tempos em tempos. Para quem acompanha o tema de perto, tudo isso é muito frustrante, por causa da imensa "demanda reprimida" no Brasil em relação à China, por intercâmbios (científicos, tecnológicos, universitários, técnicos, esportivos e culturais), investimentos e aumento das exportações brasileiras, principalmente de produtos industriais. 

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Quarta, 12 Agosto 2020

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