​Enologia mundial perde Michel Rolland

Ele trabalhou para muitas vinícolas em vários continentes
Entre seus empreendimentos mais emblemáticos está o Clos de los Siete, na Argentina, um dos maiores investimentos estrangeiros em vinhos premium no país

A enologia mundial se despediu nesta sexta-feira (20) do enólogo francês Michel Rolland, um dos mais influentes da profissão. Ele morreu aos 78 anos, em Bordeaux, de um infarto fulminante. Nascido em uma família de viticultores em Libourne, Rolland cresceu na propriedade da família, o Château Le Bon Pasteur, em Pomerol. Ele se matriculou na Escola de Viticultura e Enologia de La Tour Blanche e na Faculdade de Enologia da Universidade de Bordeaux, onde conheceu Dany. Ambos se formaram em 1970. Três anos depois, ambos estabeleceram uma parceria com o casal Chevrier, no laboratório enológico de Libourne, recomprando todas as ações do laboratório Jean Chevrier. Então Rolland decidiu perseguir seu sonho de desenvolver vinhos diferenciados, de obter uma compreensão mais profunda da vinha, do solo e das pessoas.

O sucesso muitas vezes se deve à boa sorte. Michel trabalhou muito, com o entusiasmo e a curiosidade que lhe são característicos, mas teve a oportunidade de estar presente nos anos 1980, período em que as pessoas começaram a entender que a qualidade podia impulsionar as vendas de vinhos e que não se limitava a vinhos "comercializáveis" revelados pela análise química, mas que o vinho era feito também, e sobretudo, na vinha. Em 1979, após a morte do pai, o casal assumiu a gestão das propriedades da família: Château Le Bon Pasteur em Pomerol, Château Rolland-Maillet em St-Émilion e Château Bertineau St-Vincent em Lalande de Pomerol.

Nos anos 1980, com essa consciência da necessidade de qualidade, a consultoria tornou-se um trabalho de verdade, com muitas dificuldades também, numa época em que as pessoas nem sequer tinham certeza de que precisavam dela. Mas foi uma aposta bem-sucedida, afinal, o crescimento da demanda tornou-se exponencial. Havia uma pesquisa de qualidade real na França e nos Estados Unidos, que se estendeu à América do Sul, à Itália, à Espanha, ao Chile e à Índia. Entre seus empreendimentos mais emblemáticos está o Clos de los Siete, na Argentina, um dos maiores investimentos estrangeiros em vinhos premium no país. No Brasil, atuou como consultor da Miolo Wine Group entre 2003 e 2013, período em que contribuiu para avanços significativos na qualidade dos rótulos produzidos pela vinícola.

"Ao longo de sua trajetória, Michel foi uma referência global na enologia, contribuindo de forma decisiva para a evolução da qualidade dos vinhos em diversas regiões do mundo, especialmente no Novo Mundo", escreveu o também enólogo Adriano Miolo, CEO do grupo que leva seu sobrenome, em seu perfil pessoal no Instagram. "No Brasil, sua contribuição foi igualmente marcante. Entre 2003 e 2013, esteve próximo ao Grupo Miolo, assessorando tecnicamente a companhia em um momento decisivo de sua evolução. Sua presença ajudou a acelerar o desenvolvimento qualitativo dos vinhos brasileiros, trazendo referências internacionais e contribuindo para posicionar a Miolo em um novo patamar no cenário global. Mais do que sua reconhecida competência, fica também a lembrança de uma convivência próxima, de trocas francas e de alguém que, à sua maneira, fez parte da nossa história", destacou.

Em uma emblemática entrevista concedida para a revista AMANHÃ aos jornalistas Luiz Guimarães e Andreas Müller em 2004, Rolland teceu muitos comentários sobre vinhos que, coincidentemente, ainda são muito válidos. Ao ser perguntado sobre as diferentes regiões produtoras da bebida no Brasil, Rolland explicou que cada local tem sua peculiaridade. "O Vale do São Francisco, no Nordeste, tem um clima muito particular. Lá não há o descanso da vinha (a região produz duas safras anuais). Desenvolvemos lá um vinho com a Miolo, o Terranova, uma mescla de Cabernet Sauvigon e Shiraz. E um vinho que tem uma personalidade própria. Vamos procurar o melhor nessa zona, um vinho com taninos mais finos, por causa do clima cálido. Ao natural, a região produz um vinho mais duro, um pouco rústico. Nosso trabalho o que é? E buscar fineza num lugar onde não se produz naturalmente um produto fino. Será um vinho agradável, mas não será encorpado, será uma bebida com boa relação qualidade-preço. Mas terá uma personalidade. A região tem uma característica própria que vai dar essa personalidade, vindo a ser diferente de Bento Gonçalves e da região da Campanha gaúcha, na fronteira com o Uruguai", ensinou. Acompanhe, no PDF abaixo, a reprodução da entrevista na íntegra.

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Sexta, 20 Março 2026

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