Um divisor de águas

Ou seria de ventos? A meu ver, os próximos empreendimentos de alto padrão em Porto Alegre, corporativos ou residenciais, exibirão como isca para atrair compradores a garantia de abastecimento de energia elétrica por meio de geradores
O temporal e a resultante falta de luz na capital gaúcha, no último 16 de janeiro, foi traumático para quase toda a população devido à severidade natural do episódio e aos transtornos que acarretou. Por isso, deve tornar a autonomia de suprimento energético um novo critério de avaliação na hora de comprar ou alugar salas comerciais

O senso comum sugere que, à medida que um mercado se desenvolve, os diferenciais vão migrando dos atributos essenciais para os supérfluos. Com o setor imobiliário não foi diferente. Se no início enfatizava a qualidade estrutural das construções, a existência de elevador ou de dependência de empregada, logo passou às sacadas com churrasqueira, piscinas, salões de festas e academias. Mais recentemente, os apelos têm recaído sobre a assinatura de arquitetos famosos em projetos arquitetônicos e paisagísticos, além de features sustentáveis, como telhado verde e aproveitamento da água da chuva. Todo o restante já é taken for granted, como dizem os americanos – dado como certo.

Já é ou já era? A meu ver, os próximos empreendimentos de alto padrão em Porto Alegre, corporativos ou residenciais, exibirão como isca para atrair compradores a garantia de abastecimento de energia elétrica por meio de geradores. Nada muito sexy, é bem verdade, e um aparente retrocesso ao que poderíamos chamar de "evolução natural" do setor - porém pertinente e de fácil explicação.

O temporal e a resultante falta de luz na capital gaúcha, no último 16 de janeiro, foi traumático para quase toda a população devido à severidade natural do episódio e aos transtornos que acarretou. Por isso, deve tornar a autonomia de suprimento energético um novo critério de avaliação na hora de comprar ou alugar salas comerciais, lojas e apartamentos, constituindo um verdadeiro divisor de águas – ou seria de ventos? – do ramo imobiliário local.

Geradores podem não garantir a luz nem o funcionamento de eletrodomésticos e eletroeletrônicos de cada unidade domiciliar ou profissional. Mas provêm iluminação das áreas comuns e permitem a operacionalização dos portões de automóveis e pedestres (hoje operados por meio de tags imantadas, e não mais chaves), dos elevadores e da portaria remota. Um bom argumento de venda.

A mudança não irá decorrer somente dos abalos emocionais da tempestade de quase um mês atrás. Virá também das perspectivas, declaradas ou implícitas, de suas causas e consequências, ambas de conhecimento geral. As primeiras relacionadas às ciências da natureza. Sabe-se que fenômenos meteorológicos intensos tendem a ocorrer com mais frequência, e que o RS, por localização e geografia, deve ser particularmente atingido. Uma tormenta de magnitude levemente inferior à do último mês, embora igualmente assustadora, já havia assolado Porto Alegre em 29 de janeiro de 2016.

O horizonte subentendido diz respeito à capacidade de prevenção e resposta a choques do tipo. A rede elétrica é toda suspensa, e aterrá-la, inviável economicamente. Os cabos não têm isolamento e podem ser afetados por galhos que se desprendem das árvores cuja poda não se sabe ao certo a quem cabe. O restabelecimento rápido do serviço exige pessoal, primeiro alvo de corte da privatizada CEEE e raiz da sua insolvência, quando estatal.

Empresários e consumidores não irão esperar a improvável solução. Assim como no tema segurança passaram a oferecer e a exigir muros, grades e câmeras, colocarão os geradores no rol de must have dos novos empreendimentos – primeiro, nos de luxo, depois nos intermediários. E um novo capítulo do mercado imobiliário terá sido escrito, veja só, por um misto de influência da natureza e do homem. Ou só do homem, se quisermos ser justos ao apontar as origens das mudanças climáticas.

Sinceramente? Melhor do que descontar nas árvores. 

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Sexta, 23 Fevereiro 2024

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