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Ressaca

Juntou abstinência com birita – e eis um dia de poucas alegrias
Hoje sou fundamentalmente de vinho e cerveja. A depender do país, posso aderir à vodca ou ao saquê

De Paris (França)

Hoje acordei ressacado. Fazia frio e fiquei na cama, tentando espichar o sono, sentindo a boca seca. De olhos fechados, tentava rememorar os pensamentos da véspera. A noite tinha começado com o toque de recolher de Macron. Terminei uma garrafa de Bourgogne Aligoté, abri um Chablis, e acabei-o enquanto elucubrava sobre o que tinha acabado de ouvir. Depois lembro que escrevi alguma coisa para as redes sociais, posso ter reagido a uma ou outra pergunta e, pecado dos pecados, fui dormir sem tomar banho. O resultado concreto foi que passei o dia de hoje à deriva, com uma fome bíblica por causa da bebida. Tanto no almoço quanto no jantar, comi mais do que seria normal.

Mudou muito o panorama da ressaca. Entre os 20 e os 30 anos, muitas vezes chegava em casa pé ante pé, frequentemente de madrugada. Geralmente vinha de jantares com clientes que chegavam do mundo todo, seguidos de uma esticada. Igual ao que eles faziam por mim quando eu os visitava em Tóquio, Taipé, Barcelona ou Cingapura. Não tinha sensação mais irritante do que aquela em que você entrava em casa sem fazer barulho, ia ver se todos dormiam, e se deitava certo de que ninguém percebera o horário. Então minha mulher dizia. "Bom dia. Que jantarzinho demorado, hein? Custava ter telefonado?" Eu explodia. "E você, custava dizer que estava acordada?"

O bom era que no dia seguinte eu acordava cedo, muitas vezes depois de só 3 ou 4 horas de sono. Despertava de vez no chuveiro e ia trabalhar como se tivesse passado a noite anterior bebendo água. Muitas vezes, encarrilhava várias noites assim, a depender da importância do momento. Quando achava que ia rolar uma química boa, se meu cliente viesse acompanhado, aí eu oferecia um jantar em casa. Todos adoravam. Dos 30 aos 40, a coisa mudou. Eu já precisava ir para a cama cedo na noite seguinte. Dos 40 aos 50, precisava de Neosaldina, Coca-Cola, banho frio e levava pelo menos 48 horas para estar zerado de novo. Foi quando troquei os destilados pelos fermentados.

Hoje sou fundamentalmente de vinho e cerveja. A depender do país, posso aderir à vodca ou ao saquê. Uísque é para o Recife, e destilados mais refinados para a França e Espanha. Hoje passei o dia meio zonzo. Pensei um pouco na vida, escrevi umas coisas a um ritmo de tartaruga e atualizei a correspondência. Não vejo a hora de dormir cedo especialmente porque decidi reduzir à metade dois remedinhos. Juntou abstinência com birita, e eis um dia de poucas alegrias. As que tive, de qualquer forma, foram bem consistentes. Agora já passa das 10 da noite. Será que deveria tomar uma cerveja só para não me render sem combate?

Ainda bem que 90% das farras de hoje são três vezes mais moderadas do que uma noitada média dos anos dourados. Hoje se abusar, são quatro dias para voltar a 100% da forma. "Sua função hepática é muito boa. Algum segredo?", perguntou Doutor Fermat, meu médico de Paris. "Modération, constance et habitude", respondi à la Churchill na língua de De Gaulle.

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Segunda, 23 Novembro 2020

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