A sociedade da neve

O filme pode transmitir às gerações mais novas a essência da liderança e da obstinação, sem concessões ao heroísmo e à espetacularização
Não deve ser fácil fazer um roteiro sobre uma história que todo mundo conhece bem e que não se surpreenderá sobremodo com o antes, o durante e o depois do acidente

Eu tinha 14 anos quando aconteceu a catástrofe dos Andes. Tenho uma vaga lembrança do Natal do resgate e da recorrência da palavra milagre. Lembro, como meio mundo, da farta cobertura que as revistas deram ao evento épico. Épico porque, para além de ter sobrevivido a um desastre aéreo na montanha, um grupo de atletas de rugby uruguaios conseguiu atravessar 70 noites no frio da Cordilheira, ilhado por um desolador mar de neve. Foi só com o degelo da primavera, a partir de novembro, que dois voluntários se arriscaram a pedir socorro no vale. 

Mas, é claro, havia algo que tornava a sobrevivência um horror. E isso vinha do fato de eles terem se alimentado dos mal fornidos esqueletos congelados de seus próprios companheiros e familiares. Nas fotos das revistas Cruzeiro e Manchete, rapazes barbudos e esquálidos acampavam ao lado de uma fuselagem, tornada abrigo. Tempos mais tarde, talvez um par de anos, numa aula da Aliança Francesa, o caso foi tema de um acalorado debate. Ainda hoje sorrio quando penso na explicação que nos deu o francês rabugento que nos ensinava. 

Sem paciência para esperar que os alunos encontrassem as palavras exatas em francês para descrever como viam o sucedido, ele se apressou em dizer que não se comeu carne humana ali como se se estivesse num baile de confraternização à volta de Astérix e Obélix. Que os rapazes certamente não se instalavam diante de um corpo e, munidos de talheres, começavam a espetar a pele e a temperá-la com sal. Que isso era feito com discrição e respeito, e os comensais nem sempre sabiam a que morto pertenciam os nacos do duvidoso acepipe. 

Conhecedor da história do Brasil, eu acho que o professor pontuava com tanto esmero esse tópico porque estava movido por seu senso de missão civilizacional. Sabendo que os briosos índios Caetés, meus vizinhos nordestinos, tinham botado o bispo Dom Sardinha na panela e o devorado com farinha, talvez, pensou ele, seria de bom tom nos passar a visão gaulesa dessa prática datada. Impopular entre algumas de suas alunas, minhas colegas, se havia ali uma pessoa que muitas queriam ver arder num caldeirão, esta seria ele, com seus humores mercuriais. 

Tudo isso me veio à mente enquanto via o filme. Não deve ser fácil fazer um roteiro sobre uma história que todo mundo conhece bem e que não se surpreenderá sobremodo com o antes, o durante e o depois do acidente. Acho, contudo, que conseguiram o intento e o filme pode transmitir às gerações mais novas a essência da liderança e da obstinação, sem concessões ao heroísmo e à espetacularização. Pergunto: até que ponto o rugby moldou a têmpera do grupo? Tenho um amigo na França que diz que trata-se de um esporte selvagem jogado por cavalheiros. 

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Sexta, 14 Junho 2024

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