A abordagem

Se há um campo profissional que não comporta bravata, é a medicina
Sendo eu gordo — na fronteira da morbidez, segundo os cânones — ele queria propor que eu fizesse uma cirurgia de redução do estômago com ele


Semanas atrás eu estava no Rio de Janeiro numa missão profissional. Como aprendi a compartilhar alguns fatos da vida em redes sociais, mal cheguei lá e comecei a receber boas-vindas. Numa delas, um homem que se identificou como médico e cujo nome eu já vira em postagens me convidava para jantar nos termos mais generosos, embora não muito elegantes. Depois de ter declinado da honra duas vezes, ele conseguiu o meu telefone com um conhecido comum e, numa prosa no limite do impositivo, disse entender que eu estava ocupado, que trocaria o jantar por um almoço, mas que era vital me ver por razões que ele preferia não citar por telefone. Quando concordei meio a contragosto em nos vermos no dia seguinte, ainda tive que ouvir um enigmático "você vai me agradecer pelo resto da vida."

Pouco mais novo do que eu, era um sujeito bem apessoado. Treinado para tentar entender interlocutores de dezenas de nacionalidades, às vezes sem dividir com eles sequer um idioma familiar, percebi estar diante de um homem siderado pela ambição e devastado pela vaidade. Isso não me afligiu. Pelo contrário, comecei a achar divertido que um médico de tantas credenciais precisasse alardeá-las. Com a facilidade que temos para verificar o cartel de realizações alheio, não faz sentido vender-se como berinjela na feira. Ser agradável, quaisquer que fossem seus objetivos, teria sido o atalho para fazer valer o almoço. Ademais, é de mau gosto que profissionais de saúde se apresentem no mesmo tom que vendedores de aspirador de pó. Onde ele queria chegar?

Bem na hora em que eu saboreava o bacalhau com um vinho verde, a verdade aflorou. Avaliando-me com olho clínico, ele tinha uma proposta. Sendo eu gordo — na fronteira da morbidez, segundo os cânones — ele queria propor que eu fizesse uma cirurgia de redução do estômago com ele. Desinteressado pelo próprio prato e ansioso para me dar informações tranquilizadoras, depois do passo fatal, ele passou a arfar, a hiperventilar, a se perder no enredo intrincado de convencimento aos pacientes. Embora tenha falado de dinheiro além do que recomendava a ocasião, deu a entender que, se eu topasse, trocaria meu cheque por publicidade. Ou seja, ao lograrmos sucesso, eu me encarregaria de falar dele em redes sociais.

Dito de outra forma, eu era um gordo influencer. Querem saber o que eu achei? Sinceramente, nada vi de errado. Apesar de não ter vontade de fazer a cirurgia, acho que ele escolheu um alvo que tinha as características adequadas para o experimento, visto que gosto de falar do que me acontece de bom. O que causou espécie foi um detalhe prosaico, de que só me dei conta na hora. Se há um campo profissional que não comporta bravata, é a medicina. É como se, aos primeiros acordes da vaidade, a confiança desmoronasse. Pode ser que eu seja da geração que viu Tancredo Neves ser imolado por tanto Professor Doutor - nenhum deles presente no enterro. Despedi-me agradecido, pelo bacalhau e pelo vinho, e não pretendo rever o médico. Pode ser que um dia me arrependa de não lhe ter dado ouvidos, mas saí aliviado para respirar a brisa do Atlântico, que, generosa, soprava para gordos e magros.

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Terça, 25 Junho 2024

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