Quando o amor à vida não basta
Às vezes uma morte súbita dói menos do que um fim anunciado. Hoje Ricardo me falou que a esposa do potiguar Lito Sousa veio às redes anunciar que o marido está sofrendo de uma perversa doença neurodegenerativa. Progressiva e incurável, o tom dela é o de que não há muito a ser feito. Quem é ele? Lito é um brilhante comunicador, profundo conhecedor de aviação. Mecânico de formação, seus vídeos entretêm e instruem. Ele desmistifica o medo de voar, mas apimenta as histórias com a anatomia de acidentes aéreos em que, quase sempre, uma ou várias falhas humanas se sucederam.
Estou triste com a notícia. Sou daqueles que acham que o amor à vida é um combustível forte o bastante para remeter-nos às idades avançadas, salvo nas fatalidades. Mas o mais doloroso é que há fatalidades clínicas também. Recentemente, ele anunciava um curso de formação de mecânicos. Vendo-o falar com tanto amor pela profissão, por um momento eu pensei estar diante do homem mais feliz de São Paulo. Como adivinhar que naquele momento uma doença terrível já se infiltrara? E que ela pode significar o pior? Tomávamos um café em Higienópolis quando eu soube disso. Na minha frente, a agilidade que faltará a Lito sobrava num bandido.
Explico. Na calçada da rua Pará, na frente da padaria Le Blé, um homem de 40 anos, com bolsa nas costas e bem constituído, esperava um Uber. Eis que pela calçada, em sentido contrário ao fluxo, a 3 metros de onde eu estava, vi quando um motoqueiro se esgueirou e deu um bote certeiro no celular do rapaz. Era uma moto boa, provavelmente recém roubada, e o ladrão não levava aquelas caixas de faz-de-conta nas costas. O assaltado ainda tentou esboçar uma reação, mas viu que nada podia fazer. Ninguém viu. Só eu. Ricardo foi lá e ofereceu o celular ao homem ainda sem palavras, atônito - como ficam todos nessas circunstâncias.
O mundo é feito de desequilíbrios, de contradições e de ironias. Lito se retirou das atividades. Já não tem condições de gravar. Já não poderá nos explicar com as próprias palavras a enfermidade, com o didatismo de quem nasceu professor. Só ele para nos ensinar como contornar os riscos de andar nas ruas do Brasil. Como o aparato humano pode nos proteger de nossos semelhantes? Como ele sempre diz, o grande perigo da aviação é o trajeto entre sua casa e o aeroporto. Nos ares, a possibilidade de um susto como os ocorridos no asfalto é ínfima. Torço por Lito, pelo bem, por todos os divulgadores de conhecimento.
Quem conhece Lito o vê como um amigo. A vida não é justa. Há desígnios que não dominamos e há outros que nos superam. Que se viva o hoje intensamente. Nunca é demais repetir, mas poucos levam essa pequena verdade a sério.
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