Igual porque é nosso
O articulista pernambucano Gustavo Alonso virou persona non grata entre seus conterrâneos porque, semana passada, criticou o filme "Agente Secreto" bem às vésperas do Oscar. "A coluna incomodou especialmente aqueles que idealizam o estado de Pernambuco e a cultura pernambucana (...) como um bastião da arte supostamente autêntica e popular no Brasil", escreveu ele.
Nossa. Pensei que só os gaúchos fossem bairristas assim. Mas depois me lembrei que muitos traços e peculiaridade a que nos atribuímos, para o bem e para o mal, são repetidos por nativos a respeito de suas praças Brasil afora e mundo adentro.
Exemplos não faltam. É preciso sair do Rio Grande do Sul para fazer sucesso? Pois os mineiros pensavam coisa semelhante das Alterosas lá pelos idos de 1960: quem "fica em Minas é porque tem algum defeito de fabricação", dizia-se, pois o estado "é um carrascal", "um útero pantanoso".
Gaúchos são orgulhosos da sua origem, tanto que transformaram o gentílico em grito de guerra. Mas que tal uma camiseta com os dizeres "não sou perfeito, mas sou catarinense, que é quase a mesma coisa"?.
E aquela história de nos acharmos o estado mais politizado do Brasil? Uruguaios são acometidos de autoilusão semelhante. Por isso há quem exorte os compatriotas a terminar com a permanente romantização da cultura cívica" do país: "não somos tão especiais, não somos tão diferentes".
Falando em Uruguai, parece que eles têm um equivalente ao jeitinho brasileiro - só que não para resolver problemas, e sim evitar de enfrentá-los: a la uruguaya. E seus vizinhos argentinos sofrem de uma síndrome parecida com a de vira-lata, pois só valorizam talentos locais quando aplaudidos no exterior. "Não confiamos em nós", queixou-se a cantora de tango Susana Rinaldi (p. 143-4).
E já que enveredamos pelas expressões nacionais mais repetidas, "o ano só começa depois do Carnaval" é uma falácia. Sim, porque até "a Europa Ocidental fica meio morta no verão" (Vinícius Torres Freire, Folha de S. Paulo, 26/12/13). Nem a tentação de emendar dias úteis em feriados é exclusiva daqui. Nos Estados Unidos, se o 4 de julho cai numa terça ou quinta, "é enforcamento na certa" (p. 57).
"No Brasil, sucesso é ofensa pessoal", teria dito Tom Jobim. Então leia esta frase, do produtor musical Miguel Àngel Arenas: "Na Espanha, quem tem êxito tem de passar a vida pedindo perdão".
Resolvido: basta trocar o país europeu pelo seu estado natal e Kléber Mendonça Filho já tem uma resposta pronta para Gustavo Alonso.
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