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Sobre meus voos favoritos

Inicio uma série de seis posts sobre as rotas que mais gosto. O TK 16, de São Paulo para Istambul, é o primeiro
Normalmente só desperto sobre Túnis, na entrada do Mediterrâneo. Daí o voo na minha cabeça é praticamente doméstico

De Paris (França)

TK 16 GRU – IST

Acostumei-me a esse voo a ponto de ele ter se tornado meu long courier favorito. É claro que prefiro tomá-lo de Guarulhos para Istambul quando ele tem início no Brasil. Menos agradável é quando ele já começou em Buenos Aires e faz a escala paulista apenas para completar a lotação. Quando isso acontece, pois, quem embarca em Cumbica, lá pelas cinco da manhã, já encontra o avião meio desarrumado e dá de cara com a expressão de enfado de dezenas de portenhos que estão há horas mobilizados pela viagem, e que amaldiçoam, entredentes, quem entra para lhes reclamar o lugar, provocando um rebuliço indesejado em que campeiam as luzes acesas, o som das vozes altas e todo aquela algaravia que se associa normalmente a brasileiros num avião.

Há um detalhe a ser observado. Boa parte dos passageiros vindos da Argentina vai apenas se beneficiar da boa tarifa da Turkish Airlines para, de Istambul, trocar de avião para Telaviv. Eu também faço isso, muitas vezes até para alcançar aeroportos remotos da Península Ibérica. O problema é que no caso de Israel, metade dos passageiros tem menos de 20 anos. E por tal, com os hormônios em franca efervescência, estão possuídos por aquela crença geracional de que são mesmo os reis do universo – convicção sistematicamente alimentada pelas mães que os veneram. Não se espante, portanto, se houver guerra de travesseiros, corre-corre pelos corredores e animados campeonatos de flatulências – pela pestilência ou duração –, o que só agrega ao já sabido: os bons modos no Rio da Prata ficam muito a dever.

Também para Telaviv seguem rabinos encapotados que não se intimidarão em convocar seus pares na cabine para as rezas à porta dos banheiros, que ficarão praticamente inacessíveis. Mesmo assim, apesar dessa bagunça que termina sendo divertida, é prazeroso deixar o espaço aéreo brasileiro pelo litoral capixaba a caminho do Senegal. Na travessia do Atlântico, normalmente durmo até ver Dakar lá embaixo, possivelmente movido pelo espetáculo que se deslinda mais adiante: o sobrevoo do deserto do Saara. É claro que não se deveria poder abrir as cortinas das escotilhas para ver o panorama majestoso embora alguns o façam, o que estraga o sono de dezenas. No meu caso, vou até a galley e, de lá, sem incomodar o sono de ninguém, vejo a dança das dunas doze quilômetros abaixo por centenas de quilômetros, antes de voltar para a cadeira e engatar mais umas horas de sono.

Normalmente só desperto sobre Túnis, na entrada do Mediterrâneo. Daí o voo na minha cabeça é praticamente doméstico. Pois logo estaremos sobrevoando a Sicília, depois a Dalmácia, a Grécia, um naco da Bulgária e então nos aproximamos para o pouso ao cabo de quase 14 horas. O desafio é a hidratação permanente, e nada de vinho. Dá para ver até dois filmes e ler um bom livro. A chegada a Istambul quase sempre é muito prazerosa, salvo quando tempestades de neve criam caos no terminal e obrigam os aviões a longo sobrevoo. A Turkish já foi boa empresa aérea, inclusive com boa cozinha a bordo. Foi à época em que convocou Messi como garoto propaganda juntamente com Kobe Bryant. Não era tão boa quanto dizia ser, mas era bem melhor do que é hoje. Falta pulso às comissárias para manter a ordem interna, mas sempre aparece um passageiro mais afeito a botar a casa em ordem.

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Sábado, 08 Agosto 2020

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