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De volta a Belgrado

Quando cheguei aqui pela primeira vez, tinha 19 anos. Já visitara duas capitais do leste da Europa, a saber Berlim e Budapeste. Daqui lembro que segui viagem para Sofia, mas é de Belgrado que lembro como uma espécie de pausa ensolarada. Berlim era gé...
De volta a Belgrado

Quando cheguei aqui pela primeira vez, tinha 19 anos. Já visitara duas capitais do leste da Europa, a saber Berlim e Budapeste. Daqui lembro que segui viagem para Sofia, mas é de Belgrado que lembro como uma espécie de pausa ensolarada. Berlim era gélida e impessoal. Apesar de saber falar a língua, a presença ostensiva do Muro dava margem à desolação e ao pessimismo. Berlim Oriental era uma cidade deprimente, cheia de fuligem, e parecia que a Segunda Guerra tinha terminado ontem. A polícia secreta era digna de uma ficção de Orwell e voltar para o lado ocidental era um alívio. 

De Budapeste, gostei mais. Comia-se bem, o frio era desumano, mas pairava no ar um não sei o quê de irreverência, de underground. A beleza às margens do Danúbio era repousada como se a cidade estivesse de plantão à espera de inspirados pintores que lhe captassem os tons. Sofia, na Bulgária, que visitaria na sequência, era muito subdesenvolvida, não necessariamente sinistra, mas bastante pesada. Quase não havia o que fazer e qualquer rapaz de 19 anos se entediaria naquelas paragens. Já Belgrado era ora outra coisa. Tinha futebol, basquete, xadrez nas ruas e uma certa altivez.

Isso sem dúvida se devia ao Marechal Tito, o altivo comandante dessa área dos Bálcãs. Herói condecorado, bonito, namorador, carismático e independente, na sua Iugoslávia as fronteiras eram abertas e dava-se um passaporte a quem pedisse. Avalista do convívio entre a Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Croácia, Sérvia, Montenegro e Macedônia – engenharia que se desfez depois de 1989 dando margem a uma guerra terrível –, Belgrado era a capital desse mosaico civilizacional onde residiam albaneses, kosovares e ciganos. Fazia anos que não voltava aqui e, mais do que nunca, estou próximo do rapaz de 19 anos que fui. 

Ao chegar, fiz questão de me hospedar na mesma Praça da República onde então fiquei. Se naqueles dias fez sol continuado, dessa feita a cidade está envolvida na neblina mais espessa das tantas que já vi. A Sérvia é bem diferente da Croácia e da Eslovênia – católicas romanas –, e da Bósnia ou Macedônia, em parte muçulmanas. A Sérvia, mais afeita a Montenegro, pertence a uma vertente civilizacional ortodoxa e flerta com Moscou. Destituída de fundos europeus, se era arejada em 1978, hoje tem um pouco do mofo socialista de antanho. Lembra mais Tbilissi ou Erevan do que Varsóvia ou Praga. Mas ainda é terra de muitos encantos.

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Terça, 29 Setembro 2020

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