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Concentração populacional na China é quase um desastre anunciado

Demografia, que sempre foi vantajosa em termos econômicos e de marketing, será testada pelo "novo normal"
O gigante asiático, que há uma década inverteu sua política econômica, poderá fazer o mesmo com sua política urbana no 14º Plano Quinquenal, a ser aprovado até o final do ano

Quais serão os reais impactos do anunciado "novo normal" pós-pandemia da Covid-19 sobre os expressivos ganhos de economias de escala, responsáveis pelo exuberante crescimento da China nos últimos 30 anos – obtidos graças ao tamanho e à concentração da maior parte da população em 290 grandes cidades? Os gigantescos números chineses passarão agora de vantagens comparativas a fatores limitantes?

Como funcionarão as exposições e feiras gigantescas, tradicionalmente lotadas de gente de dezenas de países e muitas cidades da própria China? Como será a partir de agora a utilização dos seus aeroportos, construídos para receber 100 milhões de passageiros por ano, como o de Daxing, recém-inaugurado? E as mega estações ferroviárias, também com dezenas de milhões de passageiros por ano? Como funcionarão com segurança as fábricas com dezenas de milhares de trabalhadores? E nos finais de semana os supermercados, lojas de departamentos, shoppings e mercados públicos, quando centenas de milhões de famílias chinesas vão às compras?

Evidente que o "novo normal" afetará não apenas a China na Ásia, mas principalmente ela, por razões óbvias. Dos 50 maiores aeroportos asiáticos, 20 são chineses, por exemplo. O aeroporto da agora famosa Wuhan teve 23 milhões de passageiros em 2018, assim como o de Urumqi, a capital da distante região autônoma de Xinjiang. Nesse mesmo ano, o aeroporto de Chongqing, cidade industrial do interior da China, recebeu 41 milhões de passageiros – e o de Guarulhos, o maior do Brasil, 42 milhões. Beijing, a capital da China, tem agora dois mega aeroportos, o "antigo", na região nordeste da cidade, e o novíssimo, na região sul. Cada um deles comporta 100 milhões de passageiros. Shanghai também tem dois aeroportos – o maior com 74 milhões de passageiros em 2018. Os maiores aeroportos do sul da China, em Guangzhou e Hong Kong, cidades próximas, receberam 70 milhões e 75 milhões de passageiros, respectivamente. Tanta demanda aérea na Ásia levou a Boeing e a Airbus a construírem aviões cada vez maiores, sendo que o maior deles, o A-380, tem capacidade para até 850 passageiros. Construído há 15 anos em função do mercado asiático, o A-380 não terá mais lugar no "novo normal".

Outro dilema crucial será o das cidades, cujo planejamento visa justamente adensar ao máximo as valorizadas áreas centrais, retirando delas os velhos prédios residenciais de cinco andares (das décadas de 1950/60), e substituindo-os por edifícios com 30, 50, 70 e até mais andares. Quanto maior a concentração, mais racional e econômico. Todas as megacidades chinesas, japonesas, coreanas, indianas e de países do Oriente Médio têm prédios gigantescos e densidades nas áreas centrais acima de 20 mil habitantes por quilometro quadrado. Segundo o estudo "World Urbanization Prospects: The 2018 Revision", da Divisão de População da Organização das Nações Unidas, havia em 2018 um total de 854 milhões de pessoas concentradas em 81 cidades, com 5 milhões de habitantes ou mais. Dessas, 48 cidades eram na Ásia, com 536 milhões de pessoas. A projeção para 2030 é chegar a 109 cidades desse porte e 1,2 bilhão de habitantes – mais da metade (61 cidades e 736 milhões de pessoas) na Ásia.

Com o agravante que a migração rural-urbana na Ásia será devastadora, no período 2018/2050, com perdas expressivas da população rural a China (52,9%), Japão (46%), Tailândia (42,3%), Irã (36,3%) e Turquia (34,0%). As maiores quantidades de migrantes rurais para as cidades serão da China, 305 milhões; Índia, 111 milhões; Indonésia 32 milhões; Bangladesh 21 milhões; Tailândia 15 milhões; e Vietnã 13 milhões.

A concentração populacional, que sempre foi vantajosa em termos econômicos e de marketing, com o "novo normal" passa a ser quase um desastre anunciado. Os ônibus enormes, as estações e vagões de metrô superlotados, os megaeventos em estádios, os amplos espaços internos com ar condicionado – estão todos condenados a serem repensados e, a médio prazo, alterados radicalmente. Nada que o mundo não possa fazer, ainda que agora possa parecer "impossível". E a China, que há dez anos inverteu a sua política econômica, com o 12º Plano Quinquenal, valorizando o mercado interno como motor para o crescimento, poderá fazer o mesmo com a sua política urbana no 14º Plano Quinquenal (2021-2025), a ser aprovado até o final do ano. 

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Quarta, 15 Julho 2020

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