Tecnologia sustentável minimiza impactos ambientais e pode baratear o tratamento de efluentes da indústria
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) aponta uma solução sustentável para um dos grandes desafios ambientais da indústria: a remoção de chumbo de águas contaminadas. O estudo demonstrou que o biocarvão produzido a partir de resíduos industriais, como cinzas, galhos e cascas de madeira, é altamente eficiente na descontaminação de efluentes da indústria com presença de metais pesados.
O biocarvão é um material rico em carbono, desenvolvido a partir do reaproveitamento de sobras do próprio processo industrial. Segundo o coordenador do estudo, professor Flávio Simioni, do Departamento de Engenharia Ambiental e Sanitária da Udesc, o biocarvão "gruda" nas moléculas de chumbo, conseguindo removê-las de forma eficaz. A técnica atua como componente auxiliar no tratamento de efluentes industriais. "Trata-se de uma solução eficiente, de baixo custo e alinhada às demandas atuais por tecnologias limpas, sobretudo em setores que geram efluentes com metais pesados, como a indústria química, têxtil e eletroeletrônica", afirma o docente.
Além da eficiência ambiental, a pesquisa destaca o potencial do biocarvão para estimular a economia circular. Diferentemente de outros materiais adsorventes, o biocarvão utilizado é gerado pelo próprio processo produtivo das indústrias e pode ser aplicado diretamente, sem necessidade de tratamentos mecânicos ou térmicos adicionais. Isso reduz custos e dá destino adequado a resíduos que, muitas vezes, seriam descartados em aterros. "Metais pesados são preocupantes porque não têm degradação fácil e podem acumular em organismos vivos, como peixes. É o que chamamos de 'persistência'. Dessa forma, temos um prejuízo no ecossistema como um todo: na qualidade da água e na saúde humana, já que podemos nos alimentar de algo que está contaminado", adverte Jeane de Almeida do Rosário, professora do Departamento de Engenharia Ambiental e Sanitária da Udesc Lages e pesquisadora do projeto.
Os testes iniciais foram realizados com resíduos de eucalipto fornecidos por empresas catarinenses dos setores de celulose e de produção de carvão vegetal. O estudo integra o projeto interdisciplinar "Soluções tecnológicas para aproveitamento de resíduos industriais", que reúne pesquisadores das áreas de química, engenharia ambiental e sanitária, engenharia civil e engenharia química. A equipe agora trabalha no refinamento dos testes com chumbo para publicação dos resultados em revista científica e pretende ampliar a pesquisa para a remoção de outros metais pesados, como zinco, cobre e mercúrio.
A pesquisa também se desdobra em outras aplicações do biocarvão, como o uso em sistemas naturais de tratamento de esgoto (wetlands) e na produção de argamassas mais sustentáveis para a construção civil, reforçando o potencial do material como tecnologia ambiental de ampla aplicação. Até agora, os experimentos comprovaram que a incorporação do biocarvão atende às normas técnicas para a argamassa de uso não estrutural.
Veja mais notícias sobre AMANHÃ SustentávelIndústriaSanta Catarina.
Comentários: