Um sentimento generalizado de dor

O mundo à minha volta está triste, cabisbaixo, sofrido e sem ânimo
Se você não souber o que dizer aos seus amigos judeus, não diga nada (foto: perfil do Facebook do autor)

Boa parte do meu mundo é judaico. Do momento em que acordo até quando vou dormir, umas 18 horas mais tarde, falo com judeus e judias que vivem em várias partes do mundo, a começar por São Paulo. Essa é uma verdade na minha vida há décadas, desde a adolescência, logo há mais de 50 anos. Nas amizades, na vida afetiva e no dia a dia social, estamos bem presentes na vida um dos outros. Até na vida profissional dos meus primórdios, os judeus eram uma espécie de ancoragem em todas as paragens onde eu começava a trabalhar. Se eu tinha referenciais do mundo numa idade precoce, falando tantas línguas até os 20 anos, eles não ficavam nada a dever, pelo contrário. O cosmopolitismo judaico não era adquirido, como o meu. Era ancestral, atávico, natural, germinado, vicejado. Por isso, sempre conseguimos nos entender bastante bem. Com eles, de alguma forma, adquiri régua e compasso, na medida da minha alma sôfrega. E eles comigo.

Em Montevidéu, tinha o velho Gorentzvaig; em Buenos Aires, o religioso David Kacherof; em Lima, o bonachão Wiesel; em Nova York, o divertido Diamond; em Paris, o fanfarrão Dreyfuss, ótimo garfo e uma linda esposa sabra; em Barcelona, Mayer, que acendia um cigarro no outro; em Manchester, Pearl, que parecia saído de Dickens; até em Cingapura tinha Simcha Cohen, que admirava os chineses, mas olhava atravessado para os indianos. Em Cape Town, tinha Kruger, com cuja filha saí. Em Sidney, Millman, mais quaker do que tzadik; no Canadá, a família Levy, onde nem todos sabiam localizar os Estados Unidos no mapa, mas sabiam apontar Israel. Não lembro de judeus no Kuwait ou na Arábia Saudita. Na Síria, Líbano, Iraque e Jordânia, tampouco. Cheguei tarde para isso. Mas no Irã, sim. Para completar, já fui a um enterro judaico em Adana, na Turquia; e a um casamento em Casablanca, no Marrocos – entre muitos. Já vivi feriados judaicos segundo a tradição em Jerusalém, Recife, Curitiba, São Paulo, Bucareste, Kiev, Lublin, Budapeste, Cracóvia, Londres, Paris, Trieste, Sarajevo, Belgrado, Salônica, Zagreb e até Tóquio. Em várias dessas ocasiões, era como se eu me fundisse à paisagem, como se minha identidade se amalgamasse com o ambiente.

É evidente que isso não fez de mim um cara de pertencimento, de "belonging", de grupo. Eu não pertenço a nada nem a ninguém. Filhos, pais, pátria, religião, clube, maçonaria, Rotary, Lions, família – todas essas instâncias eu acolho como pontes de atalho emocional, mas nunca me fizeram ser parte de um todo. Estou em casa em mais de 50 países, dos quase 180 que visitei. Quando acordo neles, parece que vivi ali desde sempre. Muitas vezes eu nem me dou conta da língua que estou falando. Ela se integra a um aplicativo natural de minha personalidade. Sou um bom observador, acho eu. Não há cultura no mundo que me mantenha acrítico, prostrado, subjugado, devotado. Não trago isso em mim. Isso dito, tem me chamado a atenção como o mundo ao meu redor está triste, compungido, devastado e sofrido desde os acontecimentos vizinhos à Faixa de Gaza, da manhã do último sábado. A maioria dos não-judeus que eu conheço, para não dizer todos, tem dificuldade de entender que a explosão da barbárie numa zona historicamente violenta possa castigar tanto o moral dos judeus se, sabidamente, a vingança contra o Hamas é a mais garantida das faturas.

Na verdade, num paralelismo próximo até cronologicamente, se os bandidos que mataram os ortopedistas num quiosque do Rio de Janeiro já estão mortos e enterrados – depois de suplicar de joelhos diante dos seus sicários para serem poupados, chance esta que não deram às suas vítimas –, é lícito supor que o Hamas seja, a essa altura, uma chusma acéfala, quase desbaratada. Se não se arrependeu do que fez, é porque não teve tempo de receber o troco. Ademais, a vida por ali vale muito pouco. Para o Hamas e o Hezbollah, a lógica que os orienta é a mesma dos traficantes de droga. Não importa que a polícia tenha apreendido um carregamento, dois, três ou vinte. Importa que um só passe para que todas as outras perdas sejam compensadas. Embriagados de doutrinação religiosa rasteira – é sempre péssima a combinação de política com religião, não pode dar no que preste –, eles acham que pagar com a própria vida, e a dos seus, os sequestros e ameaças a velhos e crianças, terá garantido um lugar no paraíso. Estranhíssimo credo. O que Voltaire dizia sobre a Igreja, aplica-se a todas as religiões de forma geral. Elevar religião a doutrina de Estado equivale a colocar um falsário no Banco Central.

O mundo à minha volta está triste, cabisbaixo, sofrido e sem ânimo. Imagino que milhares de festas de famílias judias programadas para essa época estejam comprometidas na essência, onde quer que aconteçam. Os sorrisos, se algum restou, serão tristes. Os descendentes dos que citei acima devem, neste momento, estar recolhidos em reflexão. Como é inevitável acontecer, é difícil imaginar que cenas análogas às do Holocausto e calcadas em "pogroms" possam ter irrompido a 100 quilômetros ao Sul da cidade mais feérica e alegre do Mediterrâneo. Quando eu visitei um campo de concentração pela primeira vez – Dachau, em 1976, aos 17 anos –, comprei uma espécie de adesivo em velcro que preguei na camisa xadrez que eu usava por baixo do casaco. Acho que ainda hoje o tenho. Nela estava escrito em inglês e alemão: Never Again e Nie Wieder. A sensação de que essa escrita foi desfeita nos 75 anos de Israel é simplesmente devastadora para a alma judaica. Não há espírito independente ou intelectual que resista àquelas cenas que se fixarão na memória da humanidade. Daqui a 50 anos, o 7 de outubro de 2023 será lembrado como a mais dolorosa das datas do país, mais chocante do que a do assassinato de Rabin. É isto.

Se você não souber o que dizer aos seus amigos judeus, não diga nada. Eles estão sensíveis a toda e qualquer coisa que não seja empatia. Para um judeu em especial, ver aquela senhora num carrinho de golfe ou a moça puxada pelos cabelos, é rever o que a maioria não viu, mas que lhes marcou para sempre: a rampa de Birkenau. A moçada que se divertia na rave brasileira com sua irreverência, suas tatuagens e amor à vida, personificam os filhos e netos de milhões de judeus. Eles já criaram moças e rapazes exatamente parecidas com aqueles. Não é, portanto, hora de argumentar, minimizar, tergiversar ou racionalizar. Guarde seus conhecimentos de geopolítica para outra hora. Esqueça o dólar e o petróleo. O luto está aflorado em todo o mundo. E certamente no coração das boas almas não-judias.

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Comentários: 1

Lorraine Mello em Quinta, 12 Outubro 2023 02:19

Que texto bem escrito! Obrigada ao autor pela excelente explanação, rico vocabulário e por sua escrita íntegra e escorreita!

Que texto bem escrito! Obrigada ao autor pela excelente explanação, rico vocabulário e por sua escrita íntegra e escorreita!
Visitante
Segunda, 26 Fevereiro 2024

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