"O Halo Âmbar" e Israel

Fernando Dourado Filho lança novo livro nesta quinta-feira
"Tive e tenho muitos amigos judeus, sempre acompanhei de perto os seus dilemas e o que representa Israel para eles", relata Fernando Dourado Filho

Na quinta-feira (26), será lançado em São Paulo (SP) "O Halo Âmbar", novo livro de Fernando Dourado Filho, colunista da revista e do Portal AMANHÃ. Por uma coincidência extrema, a história trata da temática de Israel pela voz dos seus personagens ao longo de três gerações de uma família judia. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista.

De onde veio a ideia de angular a percepção de Israel de tantas formas numa mesma família? Você não se espantou com a coincidência com os fatos recentes que estão mobilizando a região?
A história da família Neuman é toda ela pontuada de percepções diversas de Israel, o que não é incomum nas famílias. Especialmente entre os judeus que, sabidamente, têm um gosto apurado pela conversa e pela polêmica. Szymon, o patriarca húngaro, nunca se balançou a fazer Aliá, a viver em Israel. Brenda, sua esposa, socialista de coração, preferia a Israel dos tempos pioneiros que, para ela, trazia uma noção mais inclusiva no seu DNA. Hana, a filha oceonógrafa, reata com o judaísmo a partir de sua experiência no Leste Europeu, e não no contato com a terra ancestral. Anita, a caçula, queria criar kibutzim no interior do Nordeste e tentou, certa feita, virar religiosa numa temporada em Safed, mas não emplacou. Como acontece com as judias de esquerda, dentro do espectro político brasileiro, ela fica dividida entre a fidelidade a Israel e a doutrina. Boris volta de Israel tomado de sentimentos dúbios, falando hebraico em casa e antevendo cenários belicosos que culminam com o assassinato de Rabin. Em "O Halo Âmbar", efetivamente, Israel pontua alto.

Em mais de 500 páginas, fica claro para o leitor que a temática judaica é dominante até nos personagens secundários. Como é o caso de Carlinhos que abdica de uma oportunidade profissional em Israel e vai para a Tailândia. Ou no caso das duas irmãs, Rivka e Nancy, que não se entendem sobre a religião.
O problema de Carlinhos é a ojeriza às opções radicais, a começar pela pegada do pai. No caso das irmãs, temos o caso típico em que Rivka é casada com Mordechai, um cara religioso e não muito bem sucedido, ao passo que Nancy concebe o judaísmo mais como um modo de vida do que como uma crença religiosa. Daí a troca incessante de ironias entre elas, a partir de certa altura. Estela, a filha de Boris, concebe o judaísmo mais como uma blindagem contra as ameaças do mundo externo, mas a vida se encarrega de mudar essa percepção.

Por que os judeus estão sempre tão presentes na sua literatura? Se ao invés de Szymon Neuman você tivesse construído o seu romance a partir de João da Silva, o que mudaria na saga de família?
Nunca pensei nisso, mas vamos lá. Quando retrato uma família de judeus, um núcleo que sobreviveu a Eichmann e veio morar no Brasil, ficam abertas as portas para que os personagens nasçam sob referenciais múltiplos, em que o universalismo judaico possa transparecer. Isso, é claro, tem muito a ver com a vida internacional que eu levei. Tive e tenho muitos amigos judeus, sempre acompanhei de perto os seus dilemas e o que representa Israel para eles. Recentemente, uma amiga disse, para sintetizar sua vida familiar: "Lá em casa comemos feijoada toda semana e jejuamos uma vez ao ano. Mas Israel é inegociável. Nosso judaísmo se apoia no amor a Israel". Na família Neuman do livro, há essa dicotomia entre seculares e religiosos, sionistas e socialistas.

Como você está vendo o que se passa no Oriente Médio desde o 7 de Outubro?
Com muita tristeza. Não me conformo que tenhamos chegado tão longe e que uma barbaridade dessa tenha se desencadeado, não por acaso às vésperas de enormes feitos diplomáticos, da normalização de relações entre Israel e a Arábia Saudita. Conheço Israel há quase 50 anos. Morei na tríplice fronteira da Síria e do Líbano. Desde aquela época, eram inconcebíveis infiltrações no país como as provenientes de Gaza. As imagens vão ficar gravadas em pedra como aquelas do 11 de setembro. Em 50 anos, ainda vai se falar da Guerra de Simchá Torá, como se fala da guerra do Yom Kippur e dos Seis Dias. Tivemos lançamentos em Paris, em 12 de outubro, e decidimos que não cancelaríamos nada, a despeito da tristeza. Estivemos na Buchmesse, de Frankfurt, semana passada, e foi triste ver o stand de Israel fechado. Mesmo assim, fizemos nossa parte. A glória do manipulador e do psicopata é quebrar a assertividade alheia. Mantendo o calendário, atestamos que somos resistentes.

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Sexta, 23 Fevereiro 2024

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