Israel: os últimos 60 dias dos 75 anos

Ameaçado como nunca esteve, o país está pronto para uma refundação
No bojo do degelo diplomático, Israel seria um excelente cicerone, um mestre de cerimônias para o mundo ocidental. Alguém percebeu isso. De certa forma, é uma sina da região

1 – O 7 de outubro caiu num sábado. Desde o 11 de setembro de 2001, foram poucos os dias em que me levantei da cama sem dar uma olhada nas manchetes. A caminho do almoço, o noticiário que chegava de Israel acrescentava camadas ao que me pareceu, de imediato, uma catástrofe de grande magnitude. No ano do cinquentenário da guerra do Yom Kipur – momento simbólico de um grave cochilo da inteligência de que todos se julgavam imunizados –, Israel estava sob ataque. As imagens de uma festa ao ar livre captaram uma coreografia tenebrosa que mesclava componentes primitivos e, ao mesmo tempo, de uma crueldade inaudita.

2 – Como anfitrião daquele dia, tentei manter o curso normal do almoço. Na cabeça dos meus convidados, o que estava acontecendo perto de Gaza era apenas um pouco mais grave do que as escaramuças costumeiras. Para mim, que tenho vínculos antigos com o país, alguns elementos sobressaíam: a) a tomada de reféns obedecia à lógica do terror no mais alto grau; b) a retaliação seria contundente; c) o mundo logo a qualificaria como desproporcional; d) a falha de inteligência minaria a autoestima do país; e) o balé diplomático com o Golfo estava adiado sine die; f) a guerra de narrativa duraria anos; g) os judeus amargariam um luto pesado; h) centenas de milhões de pessoas no mundo pensariam, lá no íntimo, "bem feito".

3 – Terminado o almoço, disparei uns telefonemas para Israel. Transidos de dor, os amigos viviam o primeiro estágio do choque pós-traumático. Nitidamente, ninguém tinha uma versão articulada dos fatos. O único traço comum a todos era um pedido de crédito para Netanyahu, àquela altura já um lame duck. E que, cada um no seu espaço, reverberasse o caráter abjeto da milícia religiosa que transformara os kibutzim da região num cenário digno de Charles Manson. Em suma, a profanação do território remetia milhões de judeus a Sobibor ou Treblinka. Era como se o Never Again tivesse perdido vigor e vigência. Os milicianos conseguiram com algumas imagens atormentar para sempre o sono de judeus do mundo todo.

4 – Não é fácil decodificar os fantasmas que as cenas despertaram. Eles vão além do aparente, mexem com camadas submersas e adormecidas. Estive muitas vezes no Leste da Europa, palco representativo do que houve de melhor e de pior na vida judaica. Apagados dos mapas como células da vida judaica, os shtetl abrigavam milhões de famílias para cuja maioria as bênçãos da vida consistiam em rezar, matar uma galinha para o shabat e, ano após ano, na data mór alusiva à liberdade, entoar um cantochão que conclamava a se encontrarem no próximo ano em Jerusalém. Em Berlim, Viena, Varsóvia ou Vilnius, honravam a ciência e, quando lhes permitiam, a academia. Viver como todo mundo nem sempre foi possível, ou sequer um desejo.

5 – Nos confins da Bessarábia, nas florestas de bétulas às margens do Vístula ou na rota do Danúbio ou do Dnieper, a evocação à capital eterna era mera exaltação, um enunciado ritualístico. Então, há pouco menos de um século, o Nazismo elegeu os judeus como alvo preferencial de uma campanha populista, que lhes atribuía a culpa por todas as disfunções sociais. Espraiando-se a partir da Alemanha, que urdiu o inimaginável, os "Einsatzgruppen" irromperam nos vilarejos sonolentos e levaram aquelas pessoas para os Lager – onde eram extirpadas de toda dignidade. Primeiro, matavam a alma. Depois, por fuzilamento ou asfixia, o corpo. Pelas chaminés, se esvaía para sempre a materialidade de qualquer vestígio.

6 – A Shoá foi mais do que um genocídio e uma faxina étnica. O Sionismo assomou como um mantra. Jerusalém não era mais sonho, virou necessidade. Milhões de páginas já foram escritas sobre o parto difícil que originou Israel, há 75 anos. O maior milagre não foi drenar pântanos, irrigar desertos, criar universidades, dar cor a um idioma ressurreto. A grande proeza foi criar um Estado esponja que absorvesse a herança cultural mais diversa do mundo. Como equalizar os valores e as expectativas de judeus lituanos com iemenitas? Essa gigantesca obra de engenharia social só foi possível com o concurso de grandes homens que forjaram um pacto sobre uma pauta mínima. Duplas como Ben Gurion e Shimon Peres não são triviais.

7 – Como é próprio das democracias, lá pelo trigésimo aniversário da fundação do país, chegou ao poder uma nova leva de líderes que varria do cenário o establishment asquenazita em prol dos judeus orientais e mediterrâneos. Begin lhes deu vez e voz. Orador brilhante, oriundo das fileiras de movimentos radicais, perpetrou um feito inesperado ao selar a paz com o Egito. Fosse como fosse, Israel não precisou esperar o advento das redes sociais para reverberar os radicais. A chegada de religiosos ao poder, como forma de dar maioria parlamentar ao Primeiro-Ministro, desvirtuou o eixo da representatividade. Tratados com condescendência por Ben Gurion, que lhes dispensou do serviço militar, eles cresceram politicamente.

8 – No centro do tabuleiro, a agenda da paz e da cooperação com os palestinos teve tudo para ser sacramentada, dando espaço à neutralização de forças daninhas de ambos os lados. Internamente, o discurso do bem contra o mal levou Israel a paroxismos avant la lettre. Afinal, Israel sempre foi uma grande rede social. Então, um fanático religioso matou Ithzak Rabin, obedecendo às vociferações de radicais que o chamavam de nazista. Só um judeu pode entender emocionalmente o que representa o assassinato de outro por um semelhante. Acenos para a paz foram sabotados por Arafat e depois por Abbas, ambos temendo ser mortos pelas milícias da então OLP, de que Gaza é um centro de lucro.

9 – Sob o guarda-chuva da Jihad, floresceram grifes de muçulmanos radicais. No nome de deus, que eles evocam tanto para comer quanto na hora de disparar um míssil, o culto da morte sacrificial ganhou impulso. É óbvio que é mais tentador morrer na ilusão da glória eterna do que viver as vicissitudes de uma vida opaca. Filhos de uma cultura retrógrada que reprime fortemente a dimensão pública das mulheres; implodidos por uma demografia insana; privados dos mínimos prazeres terrenos, a tentação de oferecer seus filhos em sacrifício é sinistramente lógica. Acaso não há mães no Brasil que pedem aos traficantes que deem uma oportunidade a seus filhos, sabendo que aquilo é o mesmo que acelerar a emissão do seu atestado de óbito?

10 – Então chegamos ao 7 de outubro. Ora, quanto mais longe estamos do último desastre aéreo, mais perto ficamos do próximo. Bibi Netanyahu haverá de lamentar até o último suspiro o dia em que ignorou em bloco tudo o que muita gente sabia de forma fragmentada: a) Gaza era uma bomba de tempo; b) ramificações subterrâneas de padrão vietnamita juncam a terra crestada numa extensão superior à malha ferroviária do metrô londrino; c) fazer vista grossa aos fluxos financeiros dos chefes de gangue como forma de neutralizar as demais facções é jogo em que a esperteza, como uma serpente, uma hora pica de volta; d) achar que a manutenção de um estado de tensão mínimo lhe valorizaria o passe como "mal necessário" pode ser traiçoeiro. E foi.

11 – Nada disso oblitera o fato de que Israel foi atacado de uma forma vil e que o Hamas é a vergonha de deus, se é que há um. Quem há de negar que são a escória? É a escumalha no que pode ter de mais covarde e vil. Por mais que as condições de adversidade forjem os beligerantes a combater à margem da cartilha de guerra convencional, expor os seus como escudos humanos é contrariar as leis da vida animal, para muito além da humana. A chamada desproporção da resposta de Israel vai sempre ser um ponto nevrálgico. São muitos os combatentes israelenses que têm a nítida impressão de que lutam contra fantasmas, inimigos invisíveis. Até da força das águas se cogita para desentocá-los – como se faz com gás para caçar tatu.

12 – Hoje é Chanucá. Em muitos lugares do mundo, as cidades e os shoppings resolveram não instalar a "chanukiá" alusiva à data para não ferir suscetibilidades. Isso porque, paradoxalmente, dois meses depois do 7 de outubro, os judeus em todo o mundo sentem que a brilhante ascensão de Israel ao pódio da admiração global foi maculada. E como tal, os judeus estão sendo alvo de antipatia, quando, para eles, era de se esperar todo o contrário. Como explicar esse paradoxo insondável? Foi hercúlea a campanha de Israel e das comunidades judaicas para explicar a legitimidade da contraofensiva. Para mostrar que o "Nunca Mais", ao seu modo, está vivo. Como estaremos daqui a mais 60 dias?

13 – Aos 75 anos, ameaçado como nunca esteve, Israel está pronto para uma refundação. O país estava chegando ao topo num momento em que o Oriente Médio como um todo se habilita a ser um player em diversos cenários. No bojo do degelo diplomático, Israel seria um excelente cicerone, um mestre de cerimônias para o mundo ocidental. Alguém percebeu isso. De certa forma, é uma sina da região. Acaso o Líbano não foi destroçado quando Beirute desabrochou como próspera praça financeira de petrodólares depois do choque de 1973? Os danos trazidos pela ação de fanáticos numa linda manhã de sábado à boca do deserto terão consequências que nos acompanharão até o fim de nossas vidas.

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Segunda, 26 Fevereiro 2024

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